sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Liga da Justiça 2 - O Vírus Amazo

INFECÇÃO MORTAL

Liga da Justiça: O Vírus Amazo
Argumento -  Geoff Johns
Desenhos – Jason Fabok
Quinta, 16 de Novembro, Por + 10,90 €
A colecção dedicada à Liga da Justiça prossegue com o regresso da fase de Geoff Johns que serve de inspiração à estreia cinematográfica da Liga da Justiça, num filme dirigido por Zack Snyder, com a colaboração de Joss Whedon, que chega às salas de cinema portuguesas no mesmo preciso dia em que este livro chega aos quiosques nacionais.
Director Criativo- Chefe da DC desde 2010, escritor para televisão e proprietário de uma loja de comics, Geoff Johns começou a sua carreira como assistente de Richard Donner, o realizador do primeiro filme do Super-Homem, com Christopher Reeves. Este escritor nascido em Detroit em 1973 é um dos mais populares argumentistas da actualidade, muito por via do seu trabalho para a DC, cujas últimas grandes sagas escreveu e desde 2016, co-responsável da DC Extended Universe e administrador da DC Films, responsável pela coordenação das adaptações dos heróis da DC ao cinema.
O trabalho de Johns na Linha Novos 52, e em especial na série da Liga da Justiça, tem estado em destaque nas anteriores colecções que o Público e a Levoir têm dedicado à editora de Batman e Super-Homem. Assim, depois da colecção Super-Heróis DC, ter aberto com o volume Origem, em que o escritor reinventa a origem da Liga da Justiça para o século XXI, ao lado do desenhador Jim Lee, e da colecção No Coração das Trevas DC ter encerrado com os dois volumes da saga Mal Eterno, em que Johns colabora com David Finch, a publicação da etapa incontornável de Geoff Johns prossegue com este Vírus Amazo, bem revelador da capacidade de Geoff Johns de conciliar tradição e modernidade.
Com efeito, na base desta história, está um inimigo clássico da Liga da Justiça, Amazo, um andróide criado pelo Professor Anthony Ivo, capaz de replicar os poderes dos diferentes membros da Liga da Justiça, que apareceu pela primeira vez em Junho de 1960, no nº 30 da revista The Brave and the Bold, numa história assinada por Gardner Fox e Murphy Anderson, tornando-se uma presença recorrente, como um dos mais poderosos adversários da Liga.
São precisamente as experiências do Professor Anthony Ivo, que vão servir de fonte de inspiração para um vírus sintético criado por Lex Luthor, com o objectivo de suprimir os poderes dos criminosos meta-humanos. Embora o vírus nunca tenha sido produzido em série, pois a Casa Branca achou a ideia demasiado arriscada e controversa, Luthor chegou a usá-lo para infectar o Super-Homem, para acabar por descobrir que o vírus não tinha qualquer efeito no organismo kryptoniano. E assim, o vírus Amazo foi arquivado, no meio de outros inventos sem grande utilidade, nos laboratórios da LexCorp, onde permaneceu até ser acidentalmente libertado por Neutrão, um assassino superpoderoso, contratado para matar Luthor. Ao entrar em contacto com o corpo humano, o vírus sofreu uma mutação, passando a ser transmitido por via aérea, como o vírus da gripe e dando super-poderes aos infectados, que morrem inevitavelmente ao fim de 24 horas.
Com a Liga da Justiça toda infectada, com excepção do Super-Homem e da Mulher-Maravilha, que não são humanos, os heróis sobreviventes vão ter de se aliar a Lex Luthor para descobrir o paciente zero e assim encontrar uma cura para a epidemia.
Johns, que sabe escolher como ninguém os desenhadores com quem trabalha, conta desta vez com Jason Fabok, um jovem desenhador canadiano, que começou como assistente de David Finch, mas que aqui revela estar perfeitamente à altura do seu mestre, contribuindo com o seu traço dinâmico para fazer de O Vírus Amazo, uma história verdadeiramente espectacular.
Publicado originalmente no jornal Público de 11/11/2017

Liga da Justiça 1 - Nova Ordem Mundial


GRANT MORRISON DÁ NOVA VIDA À LIGA
NO ARRANQUE DA COLECÇÃO DA LIGA DA JUSTIÇA

Liga da Justiça: Nova ordem Mundial
Argumento – Grant Morrison
Desenhos – Howard Porter
Quinta, 09 de Novembro, Por + 10,90 €
Antecedendo a tão ansiada estreia cinematográfica da Liga da Justiça, o supergrupo que reúne os maiores heróis da DC, é o protagonista de mais uma colecção que o Público e a Levoir dedicam à editora de Batman e de Super-Homem. Uma colecção em 5 volumes que abarca alguns dos momentos mais marcantes da história da Liga da Justiça, com destaque para a fase de Geoff Johns para a Linha Novos 52, que serviu de inspiração directa ao filme de Zack Snyder. Uma fase espectacular, cujo início pudemos acompanhar em anteriores colecções dedicadas ao Universo DC, que prossegue em O Vírus Amazo e tem o seu final épico nos dois volumes da saga A Guerra de Darkseid, que relata o confronto final entre a Liga da Justiça e a forças de Apoklips, chefiadas por Darkseid.
Nesta colecção há ainda espaço para O Prego – Teoria do Caos, uma história escrita e desenhada por Alan Davis que explora uma realidade alternativa em que a nave que transportou o jovem Kal-el de Krypton para a Terra não foi descoberta pelos Kent, que tiveram um furo num pneu e falharam assim o encontro que iria mudar as suas vidas. É nesse mundo sem Super-Homem, que a Liga tem de enfrentar o poder de um Lex Luthor que controla a comunicação social e tem acesso à tecnologia kryptoniana. Um dos melhores títulos da linha Elseworlds,  que não podia faltar numa colecção como esta.
A abrir esta colecção temos Nova Ordem Mundial, história que inicia a etapa memorável de Grant Morrison como escritor da Liga da Justiça, na sequência da remodelação do Universo DC provocada pela Crise nas Terras Infinitas. Uma etapa marcada por histórias épicas, com desafios à altura dos poderes dos membros desta nova Liga, que Morrison equipara aos Deuses do Olimpo e que ficou também marcada pela mudança de nome da revista, que de Justice League, se passou a chamar apenas JLA.
O ponto de partida desta nova fase de Grant Morrison, que declarou numa entrevista que: “o que estou a fazer com a Liga da Justiça é regressar ao tipo de histórias que gostava de ler quando era miúdo e tentar fazer uma versão actualizada dessas histórias, capaz de agradar aos miúdos de hoje” é bem evidente neste Nova Ordem Mundial e consiste em colocar a Liga da Justiça a defrontar um tipo de ameaças tão poderosas que mais ninguém seria capaz de enfrentar. É claramente o caso do Hiperclã, um grupo de alienígenas liderado por Protex, com uma ligação muito especial a um dos mais antigos membros da Liga, J’onn J’onzZ, o Caçador Marciano, cujas origens são exploradas nesta história.
Uma história de acção trepidante e com uma dimensão épica, a que os desenhos de Howard Porter apesar do grande dinamismo e espectacularidade das cenas de acção, dão um toque muito característico dos anos 90, que pode parecer algo datado aos leitores do século XXI. O mesmo sucede com o Lanterna Verde e o Flash, que não são os que bem conhecemos. Aqui é Kyle Rayner que substitui Hal Jordan como o principal Lanterna Verde da Terra, tal como Wally West substitui  Barry Allen, após a morte deste durante a Crise nas Terras Infinitas. O próprio Super-Homem aparece em duas versões neste primeiro volume: com o cabelo comprido que usava antes de morrer às mãos de Darkseid e como Super-Homem Azul, uma das diferentes formas que assumiu no seu regresso ao Universo DC. Mas se estes aspectos podem parecer datados, já o argumento de Morrison resistiu perfeitamente ao teste do tempo, como só os clássicos conseguem.
Publicado originalmente no jornal Público em 04/11/2017

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Apresentação da colecção Liga da Justiça

UM SUPERGRUPO CONTRA SUPER-AMEAÇAS

Na origem da Liga da Justiça, está a Sociedade da Justiça, o primeiro supergrupo da DC, criado por Sheldon Mayer e Gardner Fox, em finais de 1940, e que se manteve em publicação até 1951, época em que as revistas de super-heróis saíram de moda, pondo fim à Era de Ouro. Uma situação que só se vai alterar na Primavera de 1960, quando nas páginas do nº 28 da revista The Brave and the Bold, surge um novo e poderoso supergrupo, que funcionava como sucessor da Sociedade da Justiça da América. O próprio Fox foi encarregue pelo editor Julius Schwartz de criar esta nova versão da Sociedade da Justiça, que mudou o nome para Liga, aproveitando o sucesso da recém-criada Liga Nacional de Baseball. Como refere Schwartz: “Queria fazer a Sociedade da Justiça da América, mas não gostava da palavra “sociedade, porque lembra um grupo social e preferi usar a palavra “Liga”, porque é um termo mais familiar para os leitores mais novos, por causa da Liga Nacional e da Liga Americana. E foi assim que aconteceu.”
Como seria de esperar, nesta fase de relançamento dos super-heróis que ficou conhecida como Era de Prata, a recém-criada Liga da Justiça contava com os principais heróis como o Batman, Super-Homem, Mulher-Maravilha, Aquaman, Flash, Lanterna Verde e Caçador Marciano. A primeira aparição oficial da Liga conheceu um sucesso tal que, em Novembro desse mesmo ano o grupo já tinha a sua própria revista. Uma revista que, com altos e baixos, se manteve desde então como um dos principais títulos da editora de Batman e Super-Homem, graças à capacidade da DC de criar super-ameaças à altura das capacidades do supergrupo.
Com um elenco de heróis que ia rodando, a Liga foi evoluindo, com Gardner Fox a dar lugar a Denny O’Neill, escritor que reformulou a Liga, removendo membros fundadores, como a Mulher-Maravilha, ou o Caçador Marciano. O’Neill, por sua vez deu lugar a outros argumentistas como Len Wein, Steve Englehart, Gerry Conway, Cary Bates e Elliot S. Maggin na escrita das aventuras dos melhores heróis da DC. Essa primeira fase da Liga da Justiça vai durar 261 números e só vai terminar em 1986, devido à profunda remodelação do Universo DC provocada pela saga Crise Nas Terras Infinitas, já publicada em Portugal pela Levoir e pela saga Legends (ainda inédita em Portugal) que se lhe seguiu.
A nova Liga da Justiça pós-Crise dá um toque inesperado à série, marcado pelo humor delirante de Keith Giffen e J.M. De Matteis, que exploram muito bem as idiossincrasias de um grupo de super-heróis pouco convencionais. Esta abordagem, tão diferente como divertida, da Liga vai durar cinco anos, até que, com a saída de Giffen e de De Matteis, a publicação entra em decadência, acabando por ser cancelada cinco anos depois. É então, em 1996, que entra em cena Grant Morrison, dando uma nova vida à Liga da Justiça com uma etapa memorável, iniciada precisamente com as histórias que podemos acompanhar no primeiro volume desta colecção, em que Morrison cumpre o seu objectivo de “regressar ao tipo de histórias que gostava de ler quando era miúdo e tentar fazer uma versão actualizada dessas histórias, capaz de agradar aos miúdos de hoje”, com grande sucesso.
Com a excepção de O Prego – A Teoria do Caos, uma história de Alan Davis, passada numa realidade alternativa em que o Super-Homem não existe, porque os Kent falharam o encontro com a nave que trouxe Kal-El de Krypton, por terem tido um furo num pneu, o resto desta colecção, é dedicado à  conclusão da fase de Geoff Johns na linha DC Novos 52.Uma saga épica cujo início acompanhámos na colecção Super-Heróis DC, e de que poderemos ler finalmente a conclusão da saga Mal Eterno, publicada na colecção No Coração das Trevas DC. Histórias que serviram de base ao filme de Zack Snyder e que têm como pano de fundo a ameaça de Darkseid, o impiedoso senhor de Apokolips, criado por Jack Kirby na saga do Quarto Mundo, também já publicada numa anterior colecção que o Público e a Levoir dedicaram à DC.


QUEM É QUEM NA LIGA DA JUSTIÇA

BATMAN
Quando os seus pais são assassinados à sua frente, o jovem Bruce Wayne decide dedicar a sua vida a combater o crime, usando a sua herança para concretizar esse objectivo. Mas cedo concluirá que precisa de algo mais para instilar o medo no coração dos criminosos. Precisa de um disfarce e de um símbolo e o morcego vai servir-lhe de inspiração.
Criado por Bob Kane e Bill Finger em 1939, o Batman é um herói sombrio, próximo da tradição policial dos heróis da literatura Pulp, como o Shadow, sem qualquer poder especial para além de um treino rigoroso, uma vontade indómita e um arsenal de equipamento sofisticado. Mas essa ausência de poderes nunca o impediu de se tornar o mais carismático de todos os super-heróis, não só nos comics mas também no cinema e um dos mais importantes membros da Liga.

SUPER-HOMEM
Perante a destruição iminente do Planeta Krypton, o cientista Jor-El decide tentar salvar o seu filho ainda bebé, lançando-o para o espaço numa nave espacial. Essa nave vai aterrar na Terra, no estado norte-americano do Kansas, onde a criança é recolhida por Jonathan e Martha Kent, um casal de agricultores, que o vão criar como seu filho, dando-lhe o nome de Clark e incutindo-lhe os valores tradicionais da América. As características diferentes do nosso sol em comparação com o que banhava o planeta Krypton, deram ao jovem Clark poderes quase ilimitados. Superpoderes de invulnerabilidade, visão de calor e de raios-X, força e velocidade, que lhe permitem voar e que, como Super-Homem, vai usar para combater o crime e ajudar a humanidade.

MULHER-MARAVILHA
Filha de Hipólita, a Rainha das Amazonas, a Princesa Diana abandona a ilha Paraíso onde a sua tribo vive, para acompanhar Steve Trevor, um piloto americano cujo avião se despenhou na ilha, de volta ao “mundo dos homens” e combater a seu lado contra a ameaça nazi. Terminada a guerra, Diana continua na América e torna-se membro da Sociedade da Justiça da América, tornando-se como o Super-Homem, uma filha adoptiva da América, cujas cores estão presentes no seu uniforme.
Principal heroína do universo DC, a Mulher-Maravilha foi criada em 1940 pelo psiquiatra William Moulton Marston, inventor do polígrafo e pioneiro dos estudos feministas, como exemplo de um novo tipo de super-herói, capaz de triunfar não através da força, mas do amor.

FLASH
Tal como o Lanterna Verde, o Flash foi outro dos super-heróis criado nos anos 40 que foi reformulado na década de 60, ganhando uma nova origem e uma outra identidade secreta. A Jay Garrick, o Flash original criado por Gardner Fox e Harry Lampert em 1940, sucedeu em 1956, Barry Allen, um cientista que ganhou super-velocidade ao ser atingido por um raio enquanto manipulava produtos químicos no laboratório da polícia. O mais popular de todos os Flash é Barry Allen, mas nesta colecção está também em destaque o seu sucessor, Wally West.

LANTERNA VERDE
Ao descobrir nos destroços de uma nave espacial, um extraterrestre moribundo, o piloto de testes Hal Jordan percebe que foi escolhido para substituir Abin-Sur, esse extra-terrrestre, como membro da Tropa dos Lanternas Verdes, uma espécie de polícia intergaláctica que zela pela paz no espaço sideral, tendo como única arma um anel que permite materializar através de energia tudo o que o seu portador imaginar.
Criado por John Broome e Gil Kane, em 1959, por indicação do editor Julius Schwartz, Hal Jordan é de longe o mais popular dos Lanternas Verdes, mas nesta colecção há outros Lanternas Verdes a integrar a Liga da Justiça, como Kyle Rayner, o seu sucessor e Jessica Cruz, que passou a usar o anel na sequência da saga Mal Eterno.

AQUAMAN
Criado por Mort Weisinger e Paul Norris em 1941, no nº 73 da revista More Fun Comics, Aquaman é o resultado de uma ligação entre um humano e uma princesa atlante. Um ser capaz de viver tanto à superfície como debaixo de água e com capacidade de comunicar com todas as criaturas marinhas. Apesar de estrear na década de 40, só na década de 60, durante o período conhecido pela Silver Age, é que o Senhor dos Sete Mares ganha direito a uma revista própria e se torna membro fundador da Liga da Justiça.
Geoff Johns, na Linha Novos 52, conciliou a origem e a imagem tradicional do herói, com a abordagem mais dinâmica, realista e espectacular que conhecemos. 

CAÇADOR MARCIANO
Criado em 1955 por Joseph Samachson e Joe Certa, J'onn J'onzz, o Caçador Marciano apareceu pela primeira vez na história The Strange Experiment of Dr. Erdel, publicada no nº 225 da revista Detective Comics, onde é acidentalmente tele-transportado para a Terra devido a uma experiência do Dr. Saul Elder. Impedido de voltar ao seu planeta natal, J'onn J'onzz adopta a identidade secreta do detective John Jones e dedica-se a combater o crime como o Caçador Marciano. Membro fundador da Liga da Justiça, o Caçador Marciano está ausente da formação da Liga na fase de Geoff Johns, mas assume um papel fulcral nos restantes volumes desta colecção.

CIBORGUE
Criado por George Pérez e Marv Wolfman em 1980, durante a sua aclamada passagem pela série The New Teen Titans, de que o Ciborgue era um dos membros, Victor Stone viu a sua origem reinventada por Geoff Johns no âmbito da linha Novos 52. Nesta nova versão, Victor Stone era um jovem atleta que, devido a um acidente no Laboratório S.T.A.R. em que o seu pai trabalhava, viu o seu corpo despedaçado pela explosão de uma Caixa Materna, sendo salvo graças à tecnologia do Planeta Apokolips, que permite incorporar o que restou do seu corpo numa estrutura mecânica. Renascido como Ciborgue, Victor é um dos membros fundadores da Liga da Justiça reinventada por Geoff Johns.

SHAZAM
Criado para a editora Fawcett em 1939, por Will Parker e C. C. Beck, O Capitão Marvel foi um dos mais populares heróis da Era de Ouro, com a sua revista a ultrapassar as vendas da do Super-Homem durante os anos 40. Até que, em 1953, a editora teve de interromper a publicação da série, devido a um processo da DC, que argumentava que o Capitão Marvel era uma cópia do Super-Homem. Tendo ganho o processo, a DC acabaria por comprar os direitos do personagem em 1972, introduzindo-o no Universo DC, com o nome Shazam (que corresponde à palavra mágica que o jovem Billy Batson usa para se transformar no poderoso Capitão Marvel), de modo a evitar problemas legais com a editora Marvel, que também tinha um herói chamado Capitão Marvel. Na Linha Novos 52, Johns vai dar a Shazam a importância que o personagem merece, integrando-o no elenco da Liga da Justiça.



O (LONGO) CAMINHO ATÉ AO CINEMA

É já no próximo dia 16 que o filme que reúne os maiores heróis do Universo DC,  chega finalmente às salas de cinema, culminando um complexo e demorado processo que durou mais de 10 anos. Se em termos de animação, o sucesso da série produzida por Paul Dini e Bruce Timm que passou entre 2001 e 2004 no Cartoon Network, foi rapidamente replicado em sete longas-metragens lançadas directamente em DVD, no que se refere a filmes de imagem real, a coisa foi bastante mais complicada…
Tudo começou em 2007, quando o casal Michele e Kieran Mulroney foi contratado para escrever o guião para um filme da Liga da Justiça, que foi bem-recebido pela Warner, o Estúdio de cinema proprietário da DC. Depois de um primeiro contacto com o realizador Jason Reitman, que não se quis envolver num projecto destas dimensões, George Miller, o realizador da série Mad Max, foi o escolhido para levar a Liga da Justiça ao cinema. Embora Miller tenha começado imediatamente a trabalhar no casting para o filme, a greve dos argumentistas de Hollywood acabou por obrigar a suspender a produção do filme até inícios de 2008. Terminada a greve, Miller pretendia começar a filmar imediatamente na Austrália, a sua terra-natal, mas divergências entre o Comité de Cinema Australiana e a Warner Bross, impediram o estúdio de conseguir os benefícios fiscais pretendidos, as filmagens foram transferidas para o Canadá, após mais alguns meses de atraso. Entretanto, o sucesso do primeiro Batman de Christopher Nolan levou o estúdio a apostar antes em filmes individuais dos heróis, o que levou à suspensão do filme da Liga.
Foi então que George Miller se decidiu afastar do projecto e regressar à série Mad Max e o projecto voltou à estaca zero, com o argumentista Will Beall a ser contratado para escrever um novo filme da Liga. Até que, face ao sucesso de Homem de Aço, o filme de Zack Snyder que relançou o Super-Homem no cinema, o Estúdio contratou David Goyer, que tinha escrito, com Christopher Nolan, a Trilogia do Cavaleiro das Trevas que Nolan dirigiu, e que também colaborou em Homem de Aço, para escrever um filme que juntasse Batman e Super-homem e apresentasse os heróis que vão formar a futura Liga da Justiça, ao público. Esse filme foi Batman v Super-Homem e, além de revelar Gal Gadot como a Mulher-Maravilha, dá um vislumbre dos restantes três membros que irão formar a Liga: Flash, Aquaman e Ciborgue, sendo anunciado em 2014 que o filme da Liga da Justiça seria uma história em duas partes, dirigidas por Snyder e com estreias previstas para Novembro de 2017 e Junho de 2019.
Finalmente, em Abril de 2016, começaram as filmagens dirigidas por Zack Snyder, que acabaria por se afastar do projecto, já na fase de pós-produção, devido a problemas familiares (o suicídio da filha), assumindo o realizador Joss Whedon - que já tinha escrito algumas cenas adicionais - as rédeas do filme nesta fase final de montagem e a filmagem de algumas cenas adicionais. Tendo em conta que Joss Whedon foi o responsável por levar os Vingadores, da Marvel, ao grande ecrã, com o sucesso que se sabe, não há grandes dúvidas de que ele é o homem certo no lugar certo.
Já quanto ao resultado final da junção dos talentos de Snyder e Whedon, com o carisma dos maiores heróis da DC, o leitor ainda terá de esperar uma semana para o poder ver numa sala de cinema perto de si.

A COLECÇÃO

1 – Liga da Justiça: Nova Ordem Mundial
Quinta-feira, 09 de Novembro
Argumento – Grant Morrison
Desenhos – Howard Potter
No arranque desta colecção, o lendário escritor Grant Morrison renova a Liga da Justiça numa série de aventuras épicas, que permitem explorar os tremendos poderes dos maiores heróis da DC, face a ameaças tão ou mais poderosas do que eles. No arranque da etapa em que Morrison e o desenhador Howard Potter criaram a versão definitiva da Liga da Justiça, a maior equipa de super-heróis do mundo terá de enfrentar o misterioso Hiperclã, que se propõe dominar a Terra para seu bem, eliminando a Liga, e, mais tarde, vê-se literalmente envolvida num conflito entre anjos e demónios!

2  – Liga da Justiça:  O Vírus Amazo
Quinta-feira, 16 de Novembro
Argumento -  Geoff Johns
Desenhos – Jason Fabok
Prosseguindo com a publicação em Portugal das aventuras da Liga da Justiça da fase Novos 52, assinada por Geoff Johns, o principal arquitecto do Universo DC, na BD e também no cinema, este segundo volume coloca a Liga contra uma ameaça impossível de vencer pela força: um misterioso vírus mortal.
Esse vírus espalhou-se por Metrópolis, infectando todos os que encontra, incluindo os próprios membros da Liga. O seu efeito... dar superpoderes a qualquer doente, antes de finalmente o matar. A Liga da Justiça tem de correr contra o tempo para encontrar o Paciente Zero e uma cura para a misteriosa infecção, com a ajuda de Lex Luthor, que tinha sido o responsável pela criação do dito vírus.

3 – Liga da Justiça – O Prego: Teoria do Caos
Quinta-feira, 23 de Novembro
Argumento – Alan Davis
Desenhos – Alan Davis e Mark Farmer
Por falta de um prego, perdeu-se um reino... Alan Davis, célebre desenhador veterano dos comics, que aqui se revela também um escritor talentoso, leva-nos a explorar um mundo alternativo em que, devido a um furo num pneu que impede os Kent de estar no local certo à hora certa, quando a nave que transportava o jovem Kal-El se despenhou no Kansas, o Super-Homem nunca existiu. É nessa realidade distópica profundamente transformada pela ausência do Super-Homem, em que Lex Luthor controla a comunicação social e os super-heróis são proscritos, que a Liga da Justiça está prestes a enfrentar o seu maior teste. Um teste mortal, que irá pôr à prova o seu poder e moralidade e que, desta vez, terá de ser superado sem a ajuda do Homem de Aço.

4  – Liga da Justiça: A Guerra de Darkseid 1
Quinta-feira, 30 de Novembro
Argumento – Geoff Johns
Desenhos – Jason Fabok e Francis Manapul
Explorando as imortais criações de Jack Kirby na série o Quarto Mundo, a invasão de Darkseid e das forças de parademónios de Apokolips, deu início ao relançamento do universo DC da Linha Novos 52. Agora, as sementes plantadas por Geoff Johns irão eclodir no final explosivo dessa fase, com o regresso de antigas ameaças e o nascer de novos perigos. Ilustrada pela superestrela em ascensão Jason Fabok, A Guerra de Darkseid, que coloca os heróis da Liga da Justiça no centro do conflito entre Apokolips e Nova Génese, marca o fim de um mundo e o início de outro.

5  – Liga da Justiça: A Guerra de Darkseid 2
Quinta-feira, 07 de Dezembro
Argumento – Geoff Johns
 Desenhos –  Jason Fabok e Francis Manapul
O impensável aconteceu! Darkseid, o todo-poderoso senhor de Apokolips e vilão supremo do Universo DC está morto às mãos do Antimonitor e Batman, Super-Homem, Flash, Shazam e Lanterna Verde foram transformados em divindades omnipotentes, mas os planos da sua filha, treinada desde a infância para o destruir, ainda estão por revelar. O Antimonitor encontra-se em metamorfose, a Liga da Justiça foi corrompida, e os membros sobreviventes do Sindicato do Crime ainda têm uma palavra a dizer. Neste segundo e último volume desta saga épica, que encerra a colecção dedicada à Liga da Justiça, a Guerra de Darkseid atinge o seu clímax, e o Universo DC terá o seu Renascimento.
Textos publicados originalmente no jornal Público de 07/11/2017

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Entrevista com Sérgio Godinho, Fernando Dordio e Osvaldo Medina, a propósito do lançamento de O Elixir da Eterna Juventude



Feita a 25 de Outubro, durante o lançamento do livro no auditório do jornal Público, a entrevista que fiz a Sérgio Godinho e os autores do livro que explora o seu universo, usando-o como personagem, acabou por sair, não no Ipsílon, como estava inicialmente previsto, mas no próprio jornal de sábado, no fim-de-semana em que o livro foi apresentado no AmadoraBD. Por questões de espaço, mais do que uma transcrição fiel da entrevista, tive de optar por fazer uma síntese do que foi dito na apresentação do livro e na conversa posterior com os intervenientes. Mesmo assim, penso que o essencial está cá.

MÚTUO CONSENTIMENTO

No passado dia 25 de Outubro, o auditório do Público foi palco do lançamento de O Elixir da Eterna Juventude, uma Banda Desenhada em que Sérgio Godinho é o protagonista, ao lado das personagens das suas canções. O pretexto ideal para uma conversa com o próprio Sérgio e com Fernando Dordio e Osvaldo Medina, o escritor e o ilustrador que o transformaram num herói de BD.

Querem contar-nos como é que nasceu este projecto?


Fernando Dordio - Este projecto começou há mais de três anos. Quando se ouvem as músicas do Sérgio, elas transmitem muitas ideias, e ideias visuais. Mesmo que ele não descreva fisicamente as personagens nas suas canções, nós imaginamo-las, pois conhecemos o seu comportamento emocional. Eu, como fã das músicas, fui construindo as imagens ao longo do tempo e depois o que faltava era um ponto de ligação entre essas imagens, um motor para a história e a música, o Elixir da Eterna Juventude acabou por ser esse motor.
Foi um processo gradual, que passou por ouvir as musicas e mergulhar no universo das personagens, até que um dia, depois de ter ido ver o espectáculo Liberdade, disse para mim mesmo "tenho de arranjar uma forma de traduzir estas ideias em BD.” Mesmo tendo o Sérgio Godinho como personagem, está é uma obra pessoal e, por isso, decidi colocar-me também na história.

Sérgio Godinho - O Fernando diz no livro que "este trabalho foi produzido em contacto e troca de ideias permanentes com o próprio Sérgio Godinho, de modo a que nada fosse feito à sua revelia". É verdade que nada foi feito à minha revelia e de facto o Fernando foi-me mandando o trabalho em progresso e sinopses parcelares, mas eu, muitas vezes, preferi ser surpreendido, em vez de ser o "controleiro" deste trabalho, pois não tenho essa função, nem vocação.
A minha intervenção principal foi na fase inicial, apontando ao Fernando que a história estava demasiado densa e tinha ideias a mais. O que até é bom, pois pode-se sempre desbastar. Já quando se tem ideias a menos, é uma chatice, pois a coisa torna-se mais complicada.
Há sempre coisas que estão a mais e é preciso tirar a chamada "palha". O Fernando acabou por fazer essa depuração, embora mantendo a sua veia exuberante. Mas foi tudo feito com “mútuo consentimento”, como na minha canção.

FD – Sim. Além de me ajudar a focar a história, o Sérgio influenciou a própria história. A primeira versão do argumento era mais baseada nas músicas antigas, foi o Sérgio que sugeriu que a história cobrisse a sua carreira toda.

SG - Embora eu seja o foco dela, está é uma história autónoma, e felizmente autónoma. Não há uma mera ilustração das minhas canções, mas uma história que vai para lugares improváveis, tendo como ponto de partida muitas das minhas canções e também a minha excelsa pessoa (risos) mas que toma liberdades narrativas enormes e nem podia ser de outra maneira.

As canções do Sérgio quase não têm descrições físicas das personagens. Isso ajudou ou complicou?

SG – Nem físicas, nem psicológicas. Mais do que o retrato psicológico das personagens, o que acontece às personagens é o que me interessa. Uma canção é forçosamente um exercício de síntese, por isso a caracterização das personagens acaba por ser feita através da acção

FD - As músicas do Sérgio têm ideias visuais que eu aproveitei na história. Por exemplo, na música O Rei do Zum Zum, ele aparece a contornar a rotunda a toda a velocidade e é precisamente assim que ele aparece na história.
São esses pequenos apontamentos visuais, que dão identidade às personagens.

Além do Sérgio Godinho, o Jorge Palma (dando a cara ao Jeremias, personagem de uma das suas canções) e o José Afonso também estão presentes. Porque não usaste apenas as personagens do Sérgio e o próprio Sérgio? 

FD - Como em Portugal não é fácil levar para a frente projectos de Banda Desenhada, quando percebi que este ia mesmo avançar, decidi, como dizia um treinador de futebol (Quinito) "colocar a carne toda no assador" e juntar na mesma história, as minhas principais referências musicais: José Afonso, Sérgio Godinho e Jorge Palma (que empresta as feições ao Jeremias). São universos musicais e poéticos que se tocam e que fazia sentido cruzar.
Estou muito curioso para ver a reacção do Jorge Palma, pois usei-o no livro sem falar com ele.

Osvaldo, como é que foi o processo de desenhar o livro?

Osvaldo Medina - Podia dizer agora que foram anos de pesquisa, mas não foi. Foi um processo rápido e intuitivo, de criar imagens que colem com aquilo que está descrito nas músicas e com o que as pessoas estão à espera de ver aqui. Não houve nenhuma busca incessante pelo personagem.
A BD é uma paixão e é algo que eu faço com paixão, mas além disso há o meu trabalho: eu dou aulas, trabalho em animação, faço ilustração. Ou seja, nunca me pude dedicar a este livro a tempo inteiro, até porque ao mesmo tempo estava a fazer outro livro (a biografia de Agostinho Neto em BD).
Por isso, o livro demorou cerca de um ano a ser desenhado. Quando nos encontrámos no Coimbra BD em Março do ano passado, eu tinha umas vinte páginas desenhadas, mas no último mês fiz mais de trinta páginas.

O que é que te custou mais desenhar?

OM- Os vampiros foi a parte mais fácil, o complicado mesmo foi desenhar o Zeca Afonso, pois tinha que ser uma imagem que as pessoas identificassem imediatamente com o José Afonso.

Os teus vampiros estão mais próximos das gárgulas, do que da imagem mais tradicional do vampiro. Qual a razão desta opção?

OM - O Fernando estava à espera de uma imagem diferente para os vampiros, uma coisa mais discreta mas eu decidi assumir completamente os vampiros. Temos de apontar o dedo aos vampiros, chamar os bois pelos nomes!

FD - o argumento ficou bastante melhor, a partir do momento em que o Osvaldo desenha os vampiros daquela maneira. O Osvaldo tem características de desenho muito específicas e eu, obviamente, queria tirar partido dessas características. O Final que eu tinha imaginado inicialmente, não tirava partido disso, mas quando o Osvaldo desenhou os vampiros da forma que desenhou então eu percebi finalmente como é que tinha de ser o final do livro.

Sérgio, que balanço fazes desta aventura?

SG - Foi uma experiência muito interessante e surpreendente ver tudo isto a aparecer e também perceber como o traço do Osvaldo dava vida à imaginação do Fernando.
Fiquei muito satisfeito e deu-me um certo orgulho ser assim retratado.
Entrevista publicada originalmente no jornal Público de 04/11/2017

domingo, 29 de outubro de 2017

Y o Último Homem 2 - Ciclos


UM HOMEM ENTRE MULHERES

Y, O Último Homem
Vol 2 – Ciclos
26 de Outubro
Argumento – Brian K. Vaughan
Desenhos –Pia Guerra e José Marzan Jr.
Por + 12,90€
As aventuras de Yorick Brown, o último homem vivo à superfície da Terra, prosseguem neste segundo volume de uma das séries mais populares da Vertigo, que chega finalmente a Portugal. Para além de mágico e artista de fugas amador, Yorick é também filho de uma congressista dos Estados Unidos, que com a morte de todos os homens, ascendeu e muito na hierarquia política de Washington, onde a antiga Secretária da Agricultura é agora a Presidente dos Estados Unidos. Uma ascensão meteórica que não é bem recebida pelas viúvas dos políticos republicanos, que reclamam para si os cargos que pertenciam aos maridos.
Mas a situação política é o menor dos problemas de Yorick, que por ser a última esperança da propagação da raça humana, se torna um alvo apetecível para os serviços secretos de Israel, a nação que, por possuir um exército misto, estava mais bem preparada para enfrentar um cenário impensável como este. Precisamente por não haver uma explicação lógica para o facto de estar vivo, Yorick e o seu macaco Ampersand, são imprescindíveis para as pesquisas de Allison Man, uma especialista de clonagem cuja investigação tanto pode estar na origem da misteriosa epidemia, como ser decisiva para impedir a extinção da raça humana.
Quando o laboratório da Dra. Mann em Boston é destruído por uma explosão, Yorick percebe que o seu sonho de se juntar à sua namorada na Austrália terá de ser adiado, pois para ajudar a Dra. Mann a recuperar o backup dos dados e amostras da sua investigação, armazenado num laboratório na Califórnia, terá de acompanhar a cientista e a Agente 355 - a operacional dos serviços secretos que lhes serve de guarda-costas - numa perigosa viagem através dos Estados Unidos. Uma viagem difícil e cheia de obstáculos, que os levará a defrontar ameaças como o grupo radical feminista,  as Filhas da Amazona, de que Hero, a irmã de Yorick, é um dos membros mais fanáticos...
Neste segundo volume, depois de uma movimentada viagem de comboio, marcada por uma paragem forçada no Ohio, Yorick vai parar por acaso na cidade de Marrisville, uma comunidade bem organizada, que parece ter encontrado o segredo para reconstruir uma vida harmoniosa em comunidade, com todos os confortos da civilização, num mundo sem homens. Mas, como veremos, esse não é o único segredo que a  cidade de Marrisville e as suas habitantes encerram...
Uma história fantástica como esta, para ser credível, necessita de um desenho realista e rigoroso, que trate com igual eficácia tanto os cenários e os objectos, como as expressões das pessoas. É exactamente o que Pia Guerra - que com Vaughan assume a co-autoria da criação da série - consegue, graças a um traço tão simples como eficaz e de grande legibilidade, bem servido pela arte-final de José Marzan Jr. e pelas cores de Pamela Rambo. Uma equipa bem oleada que, juntamente com as fantásticas ilustrações de J. G. Jones para as capas, assegura um look muito consistente para uma série absolutamente viciante.
Como a publicação dos restantes volumes de Y, o Último Homem só está prevista para 2018, os leitores vão ter de esperar mais algum tempo para saber o que irá acontecer a Yorick e às suas amigas. Da minha parte, só vos posso garantir que essa espera vai valer a pena!
Publicado originalmente no jornal Público de 21/10/2017

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Elixir da Eterna Juventude: Uma Dança no Mundo de Sérgio Godinho

SÉRGIO GODINHO, 
DE ESCRITOR DE CANÇÕES A HERÓI DE BD

O Elixir da Eterna Juventude – Uma dança no mundo de Sérgio Godinho
Quarta-feira, 25 de Outubro
Argumento – Fernando Dordio
Desenhos – Osvaldo Medina
Por + 12,90€
A relação entre a música e a Banda Desenhada é longa e tem dado resultados bastante interessantes. Basta pensar nas biografias em BD de Johnny Cash e Nick Cave, feitas pelo alemão Reihnard Kleist, ou, no caso português, na colecção BD Pop Rock, em que diferentes desenhadores tentavam uma aproximação gráfica a alguns dos grandes nomes do rock português, com resultados desiguais, mas, em alguns casos, bastante estimulantes, ou nos livros que Nuno Saraiva tem dedicado ao fado.
O próprio Sérgio Godinho já tinha visto as suas canções reinventadas por quarenta ilustradores portugueses, no livro Sérgio Godinho e as 40 Ilustrações, coordenado por Jorge Silva e João Paulo Cotrim, em que cada ilustrador criou uma imagem inspirada por uma canção do escritor de canções. Um processo levado um pouco mais longe por Nuno Saraiva, no livro Caríssimas Quarenta Canções, em que os desenhos de Saraiva entravam em diálogo com os textos de Sérgio Godinho sobre as canções da sua vida.
No caso deste Elixir da Eterna Juventude, a abordagem é diferente e Fernando Dordio e Osvaldo Medina constroem uma história de ficção inspirada nas canções de Sérgio Godinho, de que o próprio é protagonista involuntário, numa aposta inteligente da Kingpin Books numa obra que tem tudo para chegar a um público bem mais alargado do que o núcleo restrito dos leitores habituais de Banda Desenhada.
No centro da história a que Osvaldo Medina dá vida com o dinamismo e a eficácia que lhe conhecemos, está um livro, o Diário do Elixir da Eterna Juventude, do Professor Doutor Barnabé, um personagem que se já sabíamos que era diferente dos outros, aqui ficamos a saber que também tem uma carreira académica… Esse livro mágico, que outros cobiçam, funciona como um McGuffin na melhor tradição hitchcokiana, ou seja, um pretexto narrativo para justificar o percurso do herói ao longo da história. Percurso que, no caso de Sérgio Godinho, implica uma viagem por Portugal, de norte a sul, onde encontra algumas das personagens que criou… mas não só. É o caso do seu amigo Jeremias, o fora-da-lei, descendente por linhas travessas do famigerado Zé do Telhado, que tem as feições de Jorge Palma, o músico, amigo e companheiro de estrada de Sérgio Godinho e que vai ter uma importância crucial no evoluir da trama desta história fantástica, onde também há espaço para o sobrenatural.
História bem construída, cuja leitura proporcionará um prazer acrescido a quem conhecer bem as canções do Sérgio, o Elixir da Eterna Juventude é, claramente, o projecto mais ambicioso de Fernando Dordio, autor que já tinha demonstrado ser uma argumentista bastante eficaz na série Agentes do C.A.O.S, onde colaborou pela primeira vez com Osvaldo Medina. E eficácia é um termo que assenta que nem uma luva ao trabalho de Osvaldo Medina, “o homem que desenha mais rápido do que a própria sombra” e que aqui revela um apurado sentido narrativo e de composição, que ajudam a disfarçar algumas páginas mais apressadas, mas nem por isso menos legíveis, bem servidas pela cor de Joel de Souza.
Já se o Elixir da Eterna Juventude concede mesmo a eternidade a quem o bebe, ou se estava marado, ou mesmo falsificado, é algo que o leitor só irá descobrir ao ler este livro. Mas do que não restam grandes dúvidas de que, com as suas canções, Sérgio Godinho criou personagens que ficaram para a história e que, como se vê, dão uma boa história. Ao dar-lhes oportunidade de protagonizarem esta aventura ao lado do seu criador, Fernando Dordio faz uma bela homenagem a um dos vultos maiores da música portuguesa.
Publicado originalmente no jornal Público de 21/10/2017

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Y O Último Homem 1 - Um Mundo Sem homens

O ÚLTIMO HOMEM SOBRE A TERRA

Y, O Último Homem
Vol 1 – Um Mundo Sem Homens
19 de Outubro
Argumento – Brian K. Vaughan
Desenhos –Pia Guerra e José Marzan Jr.
Por + 12,90€
Depois da série Sandman e de Livros de Magia e Batman: Uma História Verdadeira na última série das Novelas Gráficas, o Público e a Levoir voltam a explorar o vastíssimo catálogo da Vertigo, a linha mais adulta e autoral da DC Comics, dando a descobrir aos leitores portugueses, durante as próximas duas semanas, os dois primeiros capítulos de uma das suas mais importantes séries de culto: Y the Last Man.
Criada por Brian K. Vaughan e por Pia Guerra, a série, que Stephen King considera como a melhor série de BD já leu, foi publicada originalmente entre Setembro de 2002 e Março de 2008 como uma maxi-série mensal de 60 números, posteriormente recolhidos em 10 volumes encadernados e explora, com minúcia e rigor, todas as possibilidades do que aconteceria à humanidade se, de repente, todos os mamíferos detentores do cromossoma Y morressem. Mas neste caso há uma excepção, a do jovem Yorick e do seu macaco Ampersand que, por razões misteriosas sobreviveram à praga que dizimou instantaneamente 48% da população global.
Esta simples premissa, digna de um episódio da série televisiva The Twilight Zone, é muitíssimo bem explorada por Brian K. Vaughan, escritor que os leitores portugueses conhecem da série de banda desenhada Saga, que a G Floy está a publicar em Portugal, e da sua participação, como argumentista e produtor da série televisiva Lost, trabalho que conseguiu precisamente porque Damon Lindelof, um dos criadores de Lost, era um grande fã de Y, O Último Homem
Para além exterminar quase metade da população, uma praga destas dimensões teria consequências imediatas devastadoras, pois só nos Estados Unidos, 95% de todos os camionistas, pilotos aéreos e capitães de navios morreriam, provocando inúmeros desastres, com a consequente perda de vidas e estragos materiais. Estragos, esses, que seriam muito mais complicados de reparar, num mundo em que 99% de todos os mecânicos, electricistas e operários da construção civil estão desaparecidos...
Como refere o próprio Brian K. Vaughan, a melhor maneira de construir uma história credível a partir de uma premissa fantástica como esta, era tentar arranjar respostas para as questões que este cenário levanta. Nas suas palavras: “gosto de pegar num conceito simples e impressionante e realmente explorá-lo até às suas conclusões mais lógicas - o que significava no caso de Y, pesquisar tudo o que poderia acontecer se removêssemos os homens da política global e agricultura e engenharia. Qual o efeito que isso teria no planeta? Por que é que teria esse efeito? Começar por fazer estas perguntas e arranjar respostas para elas, parecia-me uma óptima maneira de criar a história.
Eu adoro fazer pesquisas. Sinto que qualquer história que escreva é uma boa desculpa para aprender mais sobre o mundo. E foi muito divertido. Se esta praga vai atacar e matar todos os homens instantaneamente, quantos mulheres-piloto haverá e o que acontece com os aviões no ar? E já que estamos a falar sobre aviões... e os submarinos? Existem mulheres nos submarinos? Toda porta abriu outra porta, e acabei de cair num buraco sem fundo. Foi um ano interessante de pesquisas exaustivas sobre questões como essas antes mesmo de começar a escrever.”
É neste cenário tão complexo como fascinante que acompanhamos o percurso de Yorick, que apenas quer ir ter com a namorada na Austrália, mas que, quer queira quer não, é a última esperança da humanidade e uma peça valiosíssima no jogo de xadrez pelo domínio deste novo mundo sem homens.
Publicado originalmente no jornal Público em 14/120/2017

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A Vida de Che em BD, nos 50 Anos da sua Morte

A Vida de Che
08 de Outubro
Argumento –Hector Germán Oesterheld
Desenhos – Alberto Breccia e Enrique Breccia
Por + 11,90€

A PAIXÃO SEGUNDO CHE GUEVARA

Há livros que, pelas circunstâncias que rodeiam a sua história, acabam por adquirir uma carga mítica. Títulos mais falados do que efectivamente lidos. Obras em que a lenda se sobrepõe à história e que, à sua maneira, fazem também história. É o caso desta biografia de Ernesto Che Guevara, ícone da revolução cubana, escrita por Hector German Oesterheld e ilustrada por Alberto e Enrique Breccia, três expoentes máximos da BD argentina e mundial, que conhece finalmente uma edição portuguesa, no preciso momento em que se completam 50 anos sobre a morte do Che, a 9 de Outubro de 1967, quando a sua tentativa de estender a revolução cubana a toda a América Latina, foi parada pelas balas do exército boliviano.
Apenas três meses após a morte de Che Guevara, em Janeiro de 1968, chegava às livrarias argentinas a Vida del Che, a biografia em banda desenhada de Ernesto Guevara de la Serna, o médico argentino que entraria para a história como Che Guevara, o líder revolucionário que ao lado de Fidel Castro, chefiou a revolução cubana. A ideia, plena de oportunidade, partiu do editor Jorge Alvarez, responsável por uma das principais editoras argentinas da época, que, para além de publicar diversos escritores argentinos, foi o primeiro a editar em livro as tiras da Mafalda, de Quino. Poucas semanas após a morte do Che, Alvarez propôs a Oesterheld e a Alberto Breccia – que o magnífico Mort Cinder, que a Levoir publicou na primeira série dedicada à Novela Gráfica tinha mostrado serem  os maiores autores argentinos da época - que contassem a vida (e a morte) de Che Guevara em Banda Desenhada, sugerindo-lhes que o fizessem de forma anónima, tendo em conta a volátil situação política da Argentina de então. Oesterheld, que nunca foi homem de esconder as suas convicções e ideais, respondeu assim ao editor: “uma história com um personagem como o Che não merece ser feita às escondidas. Por isso, não só quero assinar o argumento, como quero o meu nome bem visível na capa”. Face à urgência de ter o livro pronto o mais rápido possível, Alberto Breccia dividiu o trabalho com o seu filho Enrique que, com 22 anos, se estreou em livro precisamente com esta biografia do Che, assinando os dois o desenho.
Apesar do sucesso comercial da edição, com 60.000 exemplares vendidos em poucas semanas, os tempos não se avizinhavam fáceis. Pouco depois do jornal diário La Nación ter alertado num editorial para o perigo da existência de uma BD sobre um personagem revolucionário como o Che, a sede da editora foi invadida e o que restava da edição foi confiscada, juntamente com as pranchas originais dos Breccia, que foram destruídas. Em 1973, com a chegada ao poder da junta militar, o livro é oficialmente proibido e em 1977, o próprio Oesterheld juntamente com as suas quatro filhas, engrossa a vasta lista dos “desaparecidos”.
A Vida do Che só veria a luz do dia novamente em meados da década de 80, em Espanha, numa luxuosa edição da editora basca Ikusager, que durante vários anos, foi a única edição disponível dessa obra. E é a partir daqui que a lenda se vai sobrepondo à história. Primeiro, através da ideia de que a morte de Oesterheld se deveu a ter escrito A Vida do Che. Uma ideia difundida pelo jornalista e escritor italiano Alberto Ongaro - que, com Hugo Pratt, fez parte do famoso Grupo de Veneza, um punhado de autores italianos que foi trabalhar para a Argentina nos anos 50 - e que em 1979, ao tentar descobrir o paradeiro do escritor, encontrou alguém que lhe disse que Oesterheld tinha sido morto por ter escrito “a mais bela biografia de Che Guevara jamais feita”. Depois, com a referência, na edição da Ikusager, de que o livro tinha sido impresso tendo por base um exemplar que o próprio Alberto Breccia teria enterrado no seu quintal. 
Mesmo que a biografia do Che tenha ajudado a pôr Oesterheld debaixo do radar dos militares, foi a sua participação activa na guerrilha Montonera, um movimento rebelde de esquerda, onde também militavam as suas quatro filhas, que fez com que ele e sua família se tornassem um alvo fácil para a Junta Militar, acabando por engrossar a lista de perto de trinta mil “desaparecidos” que mancham com o seu sangue essa página negra da história argentina.
Quanto à lenda do livro enterrado no quintal, o próprio Enrique Breccia não lhe dá grande crédito dizendo: “É verdade que o livro foi confiscado poucos meses depois da sua saída, mas através de Jorge Alvarez ficámos a saber que se vendeu muito bem e que obteve uma boa repercussão geral. Mas ninguém nos perseguiu ou incomodou. Nenhum militar apareceu em minha casa, ou em casa do meu pai. E essa história do meu pai enterrar um exemplar no jardim é algo que desconheço, mas é uma questão de senso comum: porque é que seria preciso enterrar um único exemplar? Os originais foram destruídos, mas não os milhares de exemplares que se venderam, que são os que se continuam a utilizar para as sucessivas reedições do livro. Por outro lado, as nossas vidas nunca correram nenhum perigo, excepto o de morrermos de fome devido à miséria que recebíamos pelo nosso trabalho.” 
A ideia inicial de Oesterheld era fazer duas histórias separadas, com o “Viejo” a contar a vida de Ché, enquanto o seu filho Enrique se ocupava da sua morte na Bolívia, acabando finalmente por optar por uma alternância dos capítulos que dá outra força à narrativa, ao colocar em confronto o homem e o mito em que o Che se tornou ao dar a vida pelo seu ideal revolucionário. Espartilhado pelo peso da documentação e da muita informação a transmitir, Alberto Breccia teve muito menos autonomia do que o seu filho Enrique, que recebeu um argumento apenas com os diálogos e nada mais, o que lhe permitia fazer “aquilo que quisesse”. Mas a verdade é que tanto pai como filho, que tem aqui uma estreia absolutamente fulgurante na BD, dão o melhor de si. O “viejo” Alberto conciliando o rigor quase fotográfico exigido pela documentação, com um uso de colagens e recortes extremamente inovador, enquanto o seu filho Enrique levava ainda mais longe o alto contraste do preto e branco usado pelo seu pai em Mort Cinder, colocando-o ao serviço de um traço expressionista que acentua a dimensão crística do martírio do Che, bem evidente nas últimas páginas, em que a imagem do guerrilheiro morto se aproxima de forma evidente da iconografia do Cristo crucificado.
O resultado, independentemente das questões ideológicas, é um livro intemporal. Um verdadeiro clássico que, tal como Mort Cinder, mantém toda a sua força e modernidade cinquenta anos após a sua publicação inicial. 

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Novela Gráfica III 15 - O Idiota


DAS PALAVRAS DE DOSTOIEVSKI 
AOS DESENHOS DE ANDRÉ DINIZ

Novela Gráfica III – Vol. 15
O Idiota
Sexta-feira, 06 de Outubro
Argumento – Dostoievski e André Diniz
Desenho – André Diniz
Por + 9,99€
Com a publicação na próxima sexta-feira, em estreia mundial, da adaptação de O Idiota, de Fiodor Dostoievski, feita por André Diniz, chega ao fim esta terceira série da colecção Novela Gráfica. E se os autores espanhóis dominaram esta terceira série, o volume final vem mostrar que a Banda Desenhada não tem fronteiras, nem espaciais nem temporais, pois O Idiota é uma adaptação de um romance de um escritor russo do século XIX, feita no século XXI em Portugal por um autor brasileiro.
Se a adaptação à banda desenhada de textos literários é um género com grande tradição, tanto em Portugal como no resto do mundo, não deixa de ser uma aposta arriscada, face às especificidades da linguagem da BD, que são bem diferentes das da literatura. Por isso, a excessiva reverência pelo texto literário original pode levar a um resultado que está mais próximo do texto ilustrado do que da verdadeira banda desenhada. A adaptação de Os Lusíadas, de Luís de Camões, que José Ruy fez nos anos 80, ou o bem mais recente As Aventuras de Fernando Pessoa, Escritor Universal, de Miguel Moreira e Catarina Verdier, são dois bons exemplos de obras que sofrem deste problema, que afecta de forma notória a fluidez da leitura.
Por ter um domínio exímio da linguagem da banda desenhada, André Diniz, um dos mais premiados autores brasileiros da actualidade, que reside em Portugal desde 2016, opta por uma aproximação muito mais arriscada ao romance de Dostoievski, abdicando completamente do texto do escritor russo, para contar a história do Píncipe Liev Michkin recorrendo apenas à arte sequencial.
Este ambicioso projecto de transformar um livro de mais de 700 páginas numa Banda Desenhada maioritariamente muda (das mais de 400 páginas de O Idiota, pouco menos de 30 contém curtos diálogos) teve um parto demorado, com algumas falsas partidas, que não impediram o autor de levar a sua missão a bom termo.
Já em 2012, numa entrevista ao site Omelete.com., André Diniz falava sobre o projecto de adaptação de O Idiota, referindo: “Eu me apaixonei pelo livro, embora ele seja bem verborrágico em muitos momentos, e decidi fazer uma adaptação diferente. A HQ vai no caminho oposto daquele no qual a obra é escrita: serão mais de 300 páginas sem texto, com cores expressionistas e cenários minimalistas. Foi a forma que eu encontrei de me aproximar daquela essência do personagem que tanto me fascinou”
Dessa primeira versão, resultaram pouco mais de 100 páginas, finalizadas e coloridas por Marcela Mannheimer, com quem o autor já tinha colaborado em Negrinho do Pastoreio, que acabaram por ser descartadas. Houve ainda uma versão intermédia, já a preto e branco, que também ficou pelo caminho até que, em Maio de 2016, numa altura em que André Diniz já estava a morar em Portugal, arrancou com a versão final, em que as cores expressionistas dão lugar a um preto e branco contrastado, com o cinzento como segunda cor, a dar textura e profundidade aos desenhos, num registo bastante original que, apesar de ser totalmente digital, evoca a xilogravura.
Tendo desenhado em menos de um ano as mais de 400 páginas que compõem este livro, que então era inteiramente sem palavras, André Diniz não se importou, e bem, de alterar ligeiramente as regras do jogo, introduzindo, com grande parcimónia e de forma judiciosa alguns (poucos) diálogos, que possibilitam ao leitor menos familiarizado com o romance do Dostoievski uma mais fácil compreensão da complexa história imaginada pelo escritor russo.
O resultado é uma adaptação, tão original como conseguida, de um clássico da literatura mundial, publicada em Portugal antes de sair no Brasil e em França, que vem provar que é perfeitamente possível fazer “literatura desenhada” - termo que Hugo Pratt preferia para designar a BD- contando com a força das imagens e com a sua articulação sequencial, para contar uma história (quase) sem palavras.
Publicado originalmente no jornal Público de 30/09/2017

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Novela Gráfica III 14 - Uma Aldeia Branca: O Bar do Barbudo


UM BAR CHEIO DE HISTÓRIAS

Novela Gráfica III – Vol. 14
Uma Aldeia Branca: O Bar do Barbudo
29 de Setembro
Argumento e Desenho – Tomeu Pinya

Por + 9,90€

Aqui fica a terceira e última introdução que escrevi para a série III da colecção Novela Gráfica. Como sempre acontece nestes casos, para ler o texto que saiu no Público, basta clicar na respectiva imagem.

A CASA DAS HISTÓRIAS

Uma pequena aldeia branca, numa ilha perdida no Mediterrâneo. Nessa aldeia, como em todas as outras, temos um bar que se enche de turistas no Verão e de velhos a jogar o dominó durante todo o ano. Mas o que torna este bar diferente é o seu dono: Rafa, o barbudo do título, que é um viciado em histórias e que através das histórias que os seus clientes lhe contam, em troca comida ou de uma bebida, viaja por todos os mares do mundo, sem sair da sua pequena ilha.
Este é o ponto de partida para Uma Aldeia Branca: O Bar do Barbudo, esta história de histórias salpicada de Mediterrânico, publicada originalmente em Espanha, pela editora Planeta Agostini em 2009 e que valeu ao seu autor, Tomeu Pinya, o Prémio Popular Autor Revelação no Salón del Cómic de Barcelona, em 2010.
De seu nome completo, Bartolomeu Pinya Oliver, Pinya nasceu em 1982, em Palma de Maiorca e licenciou-se em Belas Artes pela Universidade de Barcelona, em 2004 e em Comunicação audiovisual, pela Universidade Pompeu Fabra, em 2006 e, embora Uma Aldeia Branca tenha sido o seu livro de estreia, o seu percurso na BD não começou aí. Como o próprio refere numa entrevista: “comecei em revistas escolares e universitárias. Estive muito tempo desenhando exclusivamente para mim, e a primeira vez que tentei um projecto sério foi para o apresentar às editoras.
Na verdade, já tinha a primeira história de Uma Aldeia Branca quatro anos antes de ser publicada, mas não me atrevi a mostrá-la a um editor senão dois anos depois, por timidez e insegurança.” A solução encontrada por Pinya para vencer essa insegurança, foi testar essas histórias, de forma isolada, enviando-as a diferentes concursos de BD, antes de as reunir numa obra de maior fôlego. E a certeza de que ali estava um bom livro em potência, chegou, quando algumas das histórias que acabariam por formar o livro, foram premiadas, como aconteceu com Cartes (Prémio ArtJove 2006), Sherezade (Prémio Sant Jordi UPF 2006) y Coloms (XI Prémio Jove d’Igualada).
Por isso, diz Pinya: “Quando finalmente apresentei o projecto, tinha já suficiente confiança no meu traço e um conhecimento do mercado que me permitia intuir que aquilo era publicável, que não estava a fazer perder tempo aos editores com o meu trabalho. Outra coisa era conseguir publicar, claro, mas finalmente a editora Planeta mostrou-se interessada e assim que pude começar a trabalhar de maneira profissional.”
O livro, que assinala a estreia de mais um autor espanhol na colecção Novela Gráfica, é uma obra coral, povoada de personagens com histórias para contar e que, além de Rafa, o dono do bar e de Núria e Marga, as empregadas, inclui naturalmente os clientes do bar. Clientes como Pantaléon, o vagabundo carregado de histórias; Eduardo Corona, o escritor argentino em busca de inspiração; Ignacio, o velho criador de pombos; Lucia, a fotógrafa de guerra: Don Nicolas, que espera (e desespera) pelas cartas do seu velho amor; o marinheiro Bernet Colóm, um Ulisses que regressa sempre a Núria, a sua Penélope, Hugo, o desenhador que não compreende a arte moderna; Kurt, o alemão de aspecto ameaçador e coração de ouro; e Fátima, a Sherezade por quem Rafa sonhou toda a vida.
Se tivermos em conta que o livro se passa numa ilha do Mediterrânico, como Palma de Maiorca, onde Tomeu nasceu, e que o autor, tanto nas fotografias como nos auto-retratos, se apresenta sempre com uma pujante barba, como Rafa, o barbudo dono do Bar, a tentação para encontrar reflexos autobiográficos neste livro é grande, mas deixemos que seja o próprio Tomeu a marcar as distâncias entre a sua vida e a sua arte: “Bem, a verdade é que mesmo que o enquadramento (a ilha, a natureza, etc.) tenha a ver com as minhas próprias vivências, eu nasci e cresci em Palma, que é uma cidade bastante grande. A aldeia, portanto, é uma invenção que me serve para caracterizar os personagens e facilitar que os seus encontros. É um recurso narrativo mais do que resultado das minhas próprias vivências. Há uma parte de mim mesmo em algumas histórias, mas mais na maneira como reflectem a minha maneira de ver as coisas, do que por estarem baseadas em algo que me aconteceu. Procuro usar a minha experiência para dar realismo aos personagens, para que o leitor possa ter a sensação de que os conhece e se reconheça neles.
Rafa, o protagonista, representa, claro, aquele lado de todos nós que queria ter um bar onde vão os amigos divertir-se, sem pensar demasiado nos horários nem no trabalho duro. É também uma projecção de mim: a parte de mim que não pode viver sem histórias.
Mas não creio que fosse feliz sendo apenas o Rafa. Há outros personagens que também sou e necessito ser, como Pantaleón, o narrador vagabundo, que é o que sabe contar as histórias, ou Eduardo, o escritor argentino, que além disso luta com  elas para  as armar e dar-lhes sentido e profundidade.”
Em termos gráficos, é interessante constatar, como o traço caricatural predominante, servido por uma leve aguada de guache cinzento, dá lugar a outros registos gráficos distintos, de acordo com as necessidades da narrativa, seja para dar maior realismo às brincadeiras das crianças, seja para homenagear Sergio Toppi (e também o Sandman de Neil Gaiman) na história contada por Fátima.
Não estamos perante um exercício de virtuosismo gratuito, mas uma mudança ditada pelas características da história a contar. Dê-mos pela última vez, a palavra ao autor: “Sim, posso dizer que me interessa mais a capacidade da Banda Desenhada para explicar historias, do que a gramática própria da BD. Não faço BD experimental, mesmo que explore os recursos narrativos da BD, enquanto sirvam ao propósito da narração. Neste aspecto, o meu interesse centra-se em criar tramas atraentes, com significado, cheias de personagens complexos e interessantes, com quem o leitor se possa identificar. Veremos se o consigo.” Para mim, não restam grandes dúvidas de que o conseguiu. Quanto ao prezado leitor, bastará continuar a leitura, para o descobrir.