segunda-feira, 24 de julho de 2017

Novela Gráfica III 4 - Batman: Uma história Verdadeira

QUANDO UMA AVENTURA DE BATMAN 
PODE SER UMA HISTÓRIA AUTOBIOGRÁFICA

Novela Gráfica III
Vol. 4 
Batman, uma História Verdadeira
Argumento -  Paul Dini
Desenhos – Eduardo Risso
Sexta, 21 de Julho
Por + 9,99€
Escrita por Paul Dini, argumentista de BD e de televisão, produtor e realizador de cinema de animação e criador da Harley Quinn, a carismática namorada do Joker, que esteve em grande destaque no filme do Esquadrão Suicida, Batman, uma História Verdadeira, a novela gráfica que chega às bancas na próxima sexta-feira, é, e não é, uma história do Batman, do mesmo modo que é, e não é, uma autobiografia.
Exemplo perfeito de como as fronteiras entre os diferentes géneros de BD nem sempre são estanques, Batman, Uma História Verdadeira é um relato autobiográfico em que Batman e os outros personagens do universo de ficção da DC Comics têm um papel preponderante. Reflexão catártica de Dini sobre um acontecimento que mudou a sua vida: um assalto e agressão ocorridos em 1993, quando trabalhava em Batman, The Animated Series, e especificamente na primeira longa-metragem derivada dessa série animada, The Mask of the Phantasm, que o deixou com cicatrizes profundas, tanto a nível físico, como sobretudo mental, este livro estilhaça literalmente a "quarta parede" entre o criador e as suas criações, colocando o autor em constante diálogo com as personagens que costumava escrever e que vão acabar por ser a porta de saída da depressão em que se encontrava preso.
Esse trauma longamente reprimido, mas nunca esquecido, só seria tornado público numa entrevista recente ao podcast Fatman on Batman, do realizador de cinema Kevin Smith. E foi depois disso que Dini decidiu transformar a sua experiência traumática numa novela gráfica publicada pela Vertigo em 2016, que está nomeada para o prémio Eisner de Melhor História Baseada em Factos Reais, na San Diego Comic Com de 2017.
A dar vida às memórias de Dini neste relato desarmante de honestidade, está o mestre argentino Eduardo Risso, bem conhecido dos leitores portugueses graças aos títulos editados pela Levoir, como Parque Chas, Batman Noir e (em breve) 100 Balas, que confirmando todo o seu imenso talento, dá aqui provas de uma versatilidade inesperada, adaptando completamente o seu traço às necessidades específicas dos diferentes momentos da história. Mestre do preto e branco, como Batman Noir demonstra à saciedade, Risso ocupa-se pela primeira vez também da cor de uma história que desenhou, com resultados deslumbrantes, mas também extraordinariamente eficazes em termos narrativos.
A cor assume uma grande importância em termos da história que Dini quer contar e Risso utiliza-a com precisão, alternando o registo gráfico e o tratamento pictórico entre as cenas em que Dini fala com as personagens do universo do Batman e os momentos reais, tratados num estilo mais próximo do que lhe é habitual. Veja-se, por exemplo, as sequências da infância de Dini, em que o jovem Paul, quase transparente para os seus colegas de escola, vai ganhando cor quando entra no seu mundo de fantasia, habitado pelas personagens da televisão, do cinema da literatura e da BD que marcaram a sua vida.
Texto publicando originalmente no jornal Público de 15/07/2017

sábado, 15 de julho de 2017

Novela Gráfica III 3 - Os Ignorantes


O MELHOR DE DOIS MUNDOS

Novela Gráfica III - Vol 3
Os Ignorantes
Argumento e Desenhos – Étienne Davodeau
Sexta, 14 de Julho
Por + 9,99 €
O que une um produtor de vinho biológico e um autor de BD? Como é o dia-a-dia em cada uma dessas actividades? Foi para tentar encontrar resposta para estas (e muitas outras) questões que Étienne Davodeau partilhou durante um ano e meio a vida do seu vizinho, o produtor vinícola Richard Leroy.

Nascido em 1965 em Maine e Loire, Davodeau estudou Artes Plásticas antes de se dedicar à BD, fundando com uns colegas o estúdio de BD PSURDE. A estreia profissional deu-se em 1992, com L’Homme qui n’aimait pas les Arbres, primeiro volume da série Les Amis de Saltiel, publicado na colecção Generation Dargaud, uma linha criada pela editora para a divulgação de novos talentos. Com Alguns Dias com um Mentiroso, publicado originalmente em França em 1997 pela Delcourt e em Portugal pela MaisBD, Davodeau mudou não só de editor, mas trocou o formato tradicional do álbum a cores de 48 páginas, pela maior liberdade do formato livro, característico da novela gráfica, em que o número de páginas é apenas condicionado pelas necessidades da história a contar. Um formato que marca o resto da sua obra e que, nas palavras do próprio Davodeau, permite “fugir à prisão do formato tradicional que, por vezes, se torna curto quando queremos fazer coisas mais literárias, mais profundas. O livro permite ter mais tempo. Implica uma mudança radical ao nível narrativo, neste caso, servido pelo desenho que me agrada mais, em bruto, rápido, nervoso, sem efeitos especiais…”
Com uma carreira dividida entre a ficção e a reportagem em BD, como em Rural, onde entrou pela primeira vez em contacto com o mundo da agricultura biológica, Davodeau convidou o seu vizinho Richard que, tal como ele, se veio instalar em meados da década de 90 numa pequena aldeia perto de Anjou, para partilhar a sua experiência de produtor de vinho, ao mesmo tempo que Davodeau o iniciava no mundo da BD. Como refere numa entrevista à revista Casemate: “Richard é um produtor vinícola artesanal, muito exigente. Ele desenvolve um discurso que me interessava e onde surgiam por vezes analogias, mas também diferenças, com o mundo da Banda Desenhada. A ideia dos Ignorantes nasceu de forma progressiva, na sequência das nossas conversas. Propus ao Richard trabalhar com ele e em troca iniciá-lo-ia no mundo da BD. Duas aventuras conjuntas a partir das quais eu faria, quase em tempo real, uma Banda Desenhada.”
O resultado é este extremamente instrutivo Os Ignorantes, em que descobrimos, tal como os protagonistas, as especificidades de cada ofício. Assim, tal como Richard Leroy, acompanhamos as diferentes fases da execução de um livro de BD, até à impressão final, contactando com desenhadores como Jean-Pierre Gibrat, Marc-Antoine Mathieu, Emmanuel Guibert e Lewis Tondheim (que desenha mesmo umas das páginas do livro) e visitando Festivais e exposições de BD. E, tal como Davodeau, vemos como se plantam as videiras, se trabalha a terra, se faz a vindima, se escolhe a madeira para os barris e se acompanha o processo de maturação de um vinho, até este estar pronto a beber. E aí percebemos que o maior ponto de contacto entre estas duas actividades é o longo tempo e muito trabalho necessário para criar um produto de qualidade, que no final vai ser rapidamente consumido pelo público.
Senhor de um traço rápido, quase caligráfico, muito bem servido por um acabamento em aguada de guache que dá profundidade às páginas, Davodeau cria uma história agradável, que se lê rapidamente e com prazer, mas que, tal como um bom vinho deve ser saboreada lentamente, para absorver devidamente todas as nuances deste relato de uma iniciação cruzada.
Texto publicado originalmente no jornal Público de 08/07/2017

sábado, 8 de julho de 2017

Novela Gráfica III 2 - Traço de Giz


OBRA-PRIMA DE MIGUELANXO PRADO
REGRESSA EM EDIÇÃO CHEIA DE EXTRAS

Novela Gráfica III - Vol 2
Traço de Giz
Argumento e Desenhos – Miguelanxo Prado
Quinta, 07 de Julho
Por + 9,99 € 
Depois de Presas Fáceis (o seu mais recente trabalho, que ganhou o Prémio de Melhor Livro Estrangeiro no último Amadora BD) na colecção anterior, Miguelanxo Prado regressa à colecção Novela Gráfica com a recuperação da sua obra mais emblemática, o amplamente premiado Traço de Giz, numa nova edição, repleta de extras.
Pré-publicado na revista Cimoc, a partir do número 134, de Maio de 1992, e publicado em Portugal um ano depois, numa edição há muito esgotada, Traço de Giz é um marco incontornável na carreira de Prado, que acabaria por voltar àquela ilha perdida no meio do Atlântico para duas curtas histórias, publicadas na revista (A Suivre) a propósito da morte de Hugo Pratt e do fim da mítica revista, também incluídas nesta edição.
Um trabalho emblemático e belíssimo, onde merece destaque a utilização dramática da cor, que abrange toda a prancha, incluindo as margens, jogando com a própria cor do papel, que vai mudando de acordo com as necessidades da história. Também interessante, em termos da utilização da cor como elemento narrativo, é o modo como as figuras surgem delimitadas por uma auréola luminosa, cuja intensidade varia de acordo com a dimensão mais realista, ou mais onírica, das cenas. Este aspecto resulta aqui de forma soberba, devido sobretudo à mestria com que as tintas acrílicas e os lápis de cera são explorados. Em termos estéticos, estamos perante um trabalho fabuloso, com o desenhador galego a captar perfeitamente a luz do Atlântico, trabalhando-a de forma a obter algumas das tonalidades irreais que povoavam os seus sonhos de infância, conseguindo, como o próprio refere “trazer para o papel um pouco da luz dos meus sonhos”.
Para além do esplendor da parte gráfica, Traço de Giz é também um eficaz exercício de estilo, tanto pelo rigor de construção da história, como pelo completo domínio dos mecanismos da narração em BD que revela. Jogando com os (des)encontros de um reduzido número de personagens, reunidas num espaço fechado na imensidão do oceano, Prado consegue construir uma história suficientemente "aberta", apesar da sua estrutura circular, para ser passível de várias interpretações. Isto é conseguido através da introdução de uma certa ambiguidade e de vários elementos alheios à história, alguns apenas sugeridos, outros explícitos (como a referência à Invenção de Morel de Adolfo Bioy Casares), que dão pistas ao leitor para construir a sua própria versão da história.
Como refere o próprio Prado: “A história é coerente. Desde o início que dou suficientes pistas para que a percebam. Falo de Borges, falo de Bioy Casares, faço citações explícitas de obras deles e de Tabucchi (…) o problema é que o leitor de BD não está habituado a encontrar estruturas diferentes do puramente linear, com apresentação, desenvolvimento e conclusão. Como quinta-essência da complicação incorporaram o flashback, mas isso é algo tão batido na narrativa, que me pareceu um pouco absurdo limitar-me a isso. E quanto a enganar o leitor, sou honesto e digo que parto de uma proposta de Bioy e Borges para criar um romance em que se engane o leitor, ocultando-lhe dados. Eu, na realidade, sou mais honesto do que eles, pois não chego a ocultar nada. Proporciono todos os elementos necessários para desvendar a história. Nem sempre em primeiro plano, mas é aí que exijo ao leitor que seja activo. Na realidade, proponho um jogo de cumplicidade um pouco mais profundo do que uma simples leitura linear. Podes ler a história, de uma maneira ou outra e já está. Ou podes entrar no jogo.”
A minha sugestão é que o leitor entre no jogo e se faça ao mar com Miguelanxo Prado, à procura dessa pequena ilha perdida no meio do Oceano, um “traço de giz no meio do azul do mar”, e mergulhe na leitura com todos os sentidos bem atentos.
Publicado originalmente no jornal Público de 01/07/2017

sábado, 1 de julho de 2017

Novela Gráfica III 1 - Ronin

Este é um daqueles títulos que eu tinha sugerido desde a primeira série de Novelas Gráficas e que, agora que foi finalmente editado em Portugal, tive o privilégio de traduzir e também prefaciar. Como é habitual nestes casos, deixo-vos com o texto do prefácio, enquanto que o texto de apresentação do volume, publicado no Público, surge apenas em imagem. Mas basta clicar sobre a imagem para o conseguir ler.


RONIN, OU O DERRUBAR DAS FRONTEIRAS

Apesar de trabalhos como Sin City, ou 300, que não se enquadram no género, o nome de Frank Miller é imediatamente associado às histórias de super-heróis, muito por via das história incontornáveis protagonizadas pelo Batman ou pelo Demolidor que escreveu e/ou desenhou, como Ano Um, O Regresso do Cavaleiro das Trevas, ou Renascido, só para falar de títulos publicados em Portugal pela Levoir.
Daí que, para os leitores menos atentos, possa parecer estranho ver o seu nome no título que abre esta terceira colecção dedicada à Novela Gráfica. Mas essa estranheza não tem qualquer razão de ser, pois Ronin é um marco dos comics americanos, uma obra extraordinariamente inovadora e que rompeu as fronteiras, até então fechadas a sete chaves, entre os comics americanos, a BD europeia e o manga japonês e, apesar de ter sido publicado originalmente em 1983 como uma mini-série em seis partes, conta um história complexa, pensada para ser lida como se de um livro se tratasse.
Como refere Jenette Kahn, a editora e mais tarde, Presidente da DC Comics, que está na génese de Ronin, ao convidar Frank Miller a apresentar uma proposta para fazer na DC a história com que sempre sonhou: “Frank queria escrever uma aventura de tamanho razoável, mas que funcionasse por si só, com um princípio, um meio e um fim. Se juntássemos as páginas que compunham os seis volumes (o que fizemos mais tarde, pois na altura, a ideia de recolher tudo num único volume nem sequer nos passou pela cabeça), obtínhamos uma história com o tamanho, a complexidade e o impacto de um romance.”
O esbater da fronteira entre os géneros, foi algo que sempre esteve bem presente no trabalho de Miller, que na série Daredevil, juntou elementos do romance policial negro e dos filmes de Kung-Fu e de ninjas às histórias de super-heróis, mas foi em Ronin que ele levou mais esta viagem das formas e em que a influência do manga e das histórias de samurais se fez sentir de forma mais evidente, tanto em termos da história, como em termos visuais e narrativos.
Numa entrevista à revista The Comics Jounal em 1981, dois anos antes de Ronin começar a ser publicado, Miller referia pela primeira vez, a influência da arte japonesa no seu trabalho dizendo: “Ultimamente, tenho estado imerso nas gravuras japonesas. Há algumas coisas nelas que me atraem e são próximas da BD. A sua influência pode não ser visível no meu trabalho nos tempos mais próximos, mas pode tornar-se bastante visível dentro de um ano. Pode demorar algum tempo para absorver um estilo”. Mas em termos narrativos, essa absorção já estava a ser feita, pois nesse mesmo ano de 1981, numa aventura de Elektra publicada na revista Bizarre Adventures #28 Miller experimenta pela primeira vez um tipo de narrativa baseada puramente na imagem. Como o próprio refere, essa história, “foi sobretudo um exercício de narrativa para mim. Foi um exercício em vários aspectos. Queria contar uma história sem balões de pensamento, ou caixas de narração. Foi também uma maneira de fazer uso das técnicas que aprendi ao ler os comics japoneses de samurais. Achei os comics japoneses verdadeiramente notáveis em vários aspectos. Consegui “ler” uma centena de páginas de um deles no outro dia sem me sentir confuso. E estava escrito em japonês! Eles apoiam-se completamente na parte visual. A abordagem deles à linguagem da BD é feita de uma forma mais pura do que a dos autores americanos.”    
História da luta entre um Ronin, um samurai sem mestre vindo do Japão medieval e o demónio que matou o seu senhor, na Nova Iorque distópica do século XXI, Ronin mistura as histórias de samurais e a ficção científica, numa narrativa complexa e ambígua, em que as coisas podem não ser bem o que parecem. Em relação ao anterior trabalho de Miller, Ronin é um salto no escuro. Uma aposta arriscada de um criador rebelde, que optou por sair da sua zona de conforto para criar algo inovador. Prescindindo de um arte-finalista, Miller, para além de escrever e editar a história, desenhou e passou ele próprio a tinta os seus desenhos, deixando a cor (que assume aqui uma dimensão tanto estética como narrativa) nas mãos de Lynn Varley, a sua namorada e futura colaboradora em inúmeros outros projectos, do Regresso do Cavaleiro das Trevas a 300.
Também em termos de planificação, é evidente o explorar de novos caminhos e de um tipo de narração mais fluida e dinâmica do que o habitual nos comics americanos, necessariamente mais apoiada na parte visual, face à ausência de balões de pensamento, ou de um narrador. Compare-se os primeiros capítulos, em que a alternância ritmada entre tiras horizontais e verticais, que marcou o seu trabalho na série Daredevil ainda se mantém, com os capítulos posteriores em que a dupla página ganha cada vez maior importância, seja para mostrar o crescimento orgânico do Complexo Aquarius, seja para dar outro impacto e espectacularidade às cenas de acção.  
Momento de viragem na carreira de Miller que, pela primeira vez reteve os direitos de autor sobre uma criação sua, Ronin foi, nas palavras do próprio Miller, “um processo de libertação. Passei do tipo de história que estava treinado para fazer, que toda a gente fazia, para desenvolver uma nova direcção para os comics.” (…) Consegui jogar com isso. Sair do registo convencional e introduzir temas e métodos visuais de diferentes origens. Além disso, tinha descoberto o que se fazia em França e no Japão em termos de BD… através dos trabalhos de Moebius e de Goseki Kojima. Essas duas influências colidiram comigo mais ao menos ao mesmo tempo e estão bem patentes em Ronin.”
O próprio traço de Miller ao longo da história reflecte essas duas influências, com as achuras nervosas do início a fazerem lembrar o traço incrivelmente dinâmico de Kojima, o desenhador de Lone Wolf and Cub, enquanto que o universo futurista do Complexo Aquarius e dos robots criados por Virgo, evocam os mundos de ficção científica de Moebius.
Inovador também em termos de produção, Ronin obrigou a utilização de um tipo de papel especial e pôs problemas específicos de impressão, de modo a que o excelente trabalho de cor em aguarela e guache de Lynn Varley pudesse ser devidamente reproduzido, criando assim condições para o aparecimento do prestige format, um tipo de edição mais cuidada que se tornaria regra para as mini-séries e graphic novels assinadas por autores com um certo estatuto.
Talvez por estar claramente à frente do seu tempo, Ronin não teve o sucesso imediato que os autores e a editora esperavam, não obstante o acolhimento entusiástico por parte dos seus colegas no meio dos comics. Mas o extraordinário sucesso de O Regresso do Cavaleiro das Trevas veio trazer outra visibilidade a Ronin que foi finalmente publicado num único volume em 1987 e que, precisamente trinta anos depois dessa primeira recolha em livro, conhece a sua primeira edição em português de Portugal.
Para terminar, demos mais uma vez a palavra a Frank Miller, para seja o próprio a definir o que foi para ele esta aventura de Ronin: “Foi um parque de diversões e foi um pesadelo. Nada me podia ter ensinado mais… fazer-me sentir melhor em relação à linguagem da BD ou fazer-me sentir mais motivado com essa linguagem do que Ronin”.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Apresentação da colecção Novela Gráfica III

AS DIFUSAS FRONTEIRAS DA NOVELA GRÁFICA

Na Banda Desenhada como no resto da vida, as categorias são úteis, pois permitem trazer uma certa ordem e arrumação a uma realidade complexa e mutável. Tal como as categorias taxonómicas de Lineu em relação à biologia, também na BD é possível delimitar grandes categorias em que se consegue, com maior ou menor dificuldade, encaixar a maioria das obras produzidas. Categorias, ou géneros, como as histórias autobiográficas, os comics de super-heróis, as séries de aventura, o mangá japonês (com todas as suas subcategorias), as adaptações literárias, a BD de temática histórica, a reportagem em BD, os relatos intimistas, entre muitas outras.
Mas se há uma coisa que esta terceira série da colecção Novela Gráfica vem demonstrar, é que estas fronteiras entre géneros são relativamente difusas e bastante permeáveis apesar de, à primeira vista, a maioria destes títulos se encaixar facilmente numa determinada categoria, com destaque para as narrativas autobiográficas, género onde é possível incluir Os Ignorantes, de Etienne Davodeau; Batman, Uma História Verdadeira, de Dini e Risso; K.O em Telavive, de Asaf Hanuka; Histórias do Bairro, de Beltran e Segui e Tempos Amargos, de Étienne Schréder.
Mas uma observação mais atenta permite perceber que não é exactamente assim. Veja-se o caso do título que abre esta terceira série: o Ronin de Frank Miller. Obra em que se misturam as influências do chambara manga, as séries japonesas de samurais, da BD europeia de ficção científica, popularizada por Moebius e pelos seus colegas da revista Metal Hurlant, criada por um autor que fez carreira no universo dos super-heróis, Ronin, para além de ser um verdadeiro tour de force em termos narrativos e visuais, é um título percursor em termos do próprio conceito de novela gráfica, e do reconhecimento dos direitos dos autores por parte das grandes editoras.
Também Traço de Giz, de Miguelanxo Prado, que regressa ao mercado português, quase 25 anos depois, numa luxuosa edição que faz inteira justiça à importância do livro, é um trabalho dificilmente classificável dentro da obra de Prado, marcada por uma crítica feroz (divertida, ou não) da realidade quotidiana, mas que aqui nos traz uma história ambígua de desencontros amorosos, marcada pelas referências ao realismo mágico sul-americano e que deixa ao leitor a responsabilidade de construir a sua versão do que terá realmente acontecido.
Outro exemplo de que as diferentes categorias não são necessariamente exclusivas é Batman, Uma História Verdadeira, de Paul Dini e Eduardo Risso, que é assumidamente uma história autobiográfica, que recorre ao universo dos super-heróis e em espacial ao do Batman, a que Dini está ligado como argumentista de BD e criador da série de animação Batman Adventures, para narrar de modo inovador, a forma como o assalto de que foi alvo e que lhe deixou marcas (físicas e mentais) profundas, transformou a vida de Dini.
Também Mater Morbi de Recchioni e Carnevale é mais do que uma simples história de terror protagonizada por Dylan Dog, o carismático detective do sobrenatural criado por Tiziano Sclavi, que é um dos mais populares heróis dos fumetti em geral e da editora Bonelli em particular. Inspirada pelos problemas de saúde que o seu escritor enfrentou durante a adolescência, Mater Morbi é uma reflexão sombria sobre o sofrimento e a doença que, aquando da sua publicação original em Itália, motivou um aceso debate público sobre a eutanásia, que envolveu a própria Ministra da Saúde.
Já em Os Trilhos do Acaso, obra recente do nosso bem conhecido Paco Roca, que por razões editoriais, foi dividida em dois volumes, não é inteiramente claro se estamos perante um relato biográfico de um antigo combatente, que o autor recolhe para transmitir aos leitores através da BD, com o fez Art Spiegelman em Maus, ou Emmanuel Guibert em La Guerre d’Alan, ou se se trata de uma bem documentada história de ficção, inspirada em factos reais.
Também Tomeu Pinya, em Uma Aldeia Branca – O Bar do Barbudo, vai alterando o seu registo gráfico principal, ao longo desta bela história sobre a força das histórias, seja para dar mais realismo às brincadeiras das crianças, ou mais intensidade aos pesadelos dos adultos, seja para prestar uma belíssima homenagem a Sérgio Toppi, o criador de Sharaz-De, um dos mais belos títulos da primeira série das Novelas Gráficas.
Por último, O Idiota, de André Diniz, obra que estreia em exclusivo nesta colecção ainda antes de ser publicada no Brasil, enquadra-se num género com grande tradição na Novela Gráfica: a adaptação à BD de textos literários. Só que Diniz não tem medo em pegar nas palavras de um clássico da literatura mundial, como Dostoyevsky, transformando-as em imagens, conseguindo concretizar assim o desafio de reinventar este clássico da literatura, numa versão quase sem palavras, em que a força das imagens se revela suficiente para contar a história complexa e profunda idealizada pelo grande escritor russo.

REGRESSOS E ESTREIAS


A preocupação em dar a descobrir aos leitores portugueses obras recentes de novos autores, tem sido uma característica fundamental da colecção Novela Gráfica, mas isso não pode deixar esquecer que há toda uma série de clássicos que permanecem escandalosamente inéditos, ou indisponíveis há décadas no nosso país. É nesse equilíbrio ente clássicos e contemporâneos, autores consagrados e jovens promessas que têm sido construídas as colecções que o Público e a Levoir dedicam à Novela Gráfica.
É o que acontece mais uma vez nesta Série III, onde regressam criadores como Miguelanxo Prado, Eduardo Risso, ou Paco Roca, já presentes na Série II, a par de outros nomes, que sendo presenças regulares nas livrarias e até em edições da Levoir, se estreiam finalmente na colecção Novela Gráfica. É o caso do americano Frank Miller, criador de Sin City e 300, cujo trabalho incontornável com super-heróis, como o Batman, ou o Demolidor, foi recuperado pela Levoir, que abre esta colecção com o seu primeiro grande trabalho pessoal, Ronin, editado finalmente em Portugal, trinta anos após a principal edição original americana em livro.
Também o premiado escritor inglês Neil Gaiman tem o seu trabalho no campo da BD bastante divulgado em Portugal, através de editoras como a Devir, Vitamina BD e Levoir, que lançou no ano passado, numa colecção com o jornal Público, a sua obra-prima, a série Sandman e que se estreia agora na colecção Novela Gráfica com Livros de Magia, um clássico da linha Vertigo, passado no mesmo universo de Sandman e magnificamente ilustrado por John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess e Paul Johnson.
Embora não tão profusamente editados em Portugal, autores como Etienne Davodeau, Paul Dini, Max, Etienne Schréder e André Diniz não são exactamente desconhecidos para os leitores mais atentos. Davodeau e Max estiveram presentes, por mais do que uma vez, no Salão Internacional de BD do Porto e viram trabalhos seus editados no nosso país, em livro, ou na revista Quadrado, pela Associação responsável pela organização do referido Salão. Paul Dini é o criador de Harley Quinn, a carismática namorada do Joker e esteve em destaque na colecção Coração das Trevas DC dedicada os Vilões da editora de Batman e Super-Homem. Schréder, além de ser um dos desenhadores da série Blake e Mortimer, um dos maiores clássicos da BD franco-belga, estreou-se na Banda Desenhada com O Segredo de Coimbra, obra que já teve direito a três edições em português, a última das quais lançada em 2016. Finalmente, o brasileiro André Diniz também tem diversos trabalhos seus editados em Portugal, com destaque para O Morro da Favela, mas neste caso, vê O Idiota, a adaptação que fez do romance de Dostoyevsky sair em Portugal uns bons meses antes de ser publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras.
Quanto às estreias em português, temos o israelita Asaf Hanuka, com K.O. em Telavive, uma recolha de cartoons autobiográficos, bem reveladores do sentido de humor, talento gráfico e sentido narrativo do excelente autor israelita. Já Mater Morbi assinala uma dupla estreia no nosso país: a de Dylan Dog, um dos mais populares personagens dos fumetti, a BD italiana, e dos seus autores, o prolífico argumentista Roberto Recchioni, actual responsável editorial da série Dylan Dog, e o desenhador Massimo Carnevale que, para além da sua colaboração como ilustrador e desenhador para as maiores editoras italianas, assinou diversas capas das séries Y, the Last Man e Northlanders para a DC/Vertigo e das séries Orchid e Conan, para a Dark Horse.
Outra estreia é a de Bastien Vivès, jovem prodígio da BD francesa, tão talentoso como produtivo e versátil (aos 27 anos já tinha 11 livros publicados) que entra nesta colecção com Polina, uma novela gráfica de 2011 sobre uma jovem bailarina, recentemente adaptada ao cinema por Valérie Muller, num filme com Juliette Binoche, que chegará aos ecrãs nacionais ao mesmo tempo que a novela gráfica que lhe deu origem.
Os maiorquinos Gabi Beltran e Bartolomé Segui, dois autores veteranos com diversos trabalhos editados no mercado europeu e o jovem Tomeu Pinya, que conquistou o público e a crítica com este O Bar do Barbudo, são mais dois exemplos de autores que se estreiam nesta colecção, mas neste caso, o seu trabalho será analisado mais em pormenor no destaque seguinte.

AS VÁRIAS FACES DA NOVELA GRÁFICA ESPANHOLA

Numa colecção marcada pela diversidade geográfica e que inclui autores israelitas, brasileiros, argentinos, ingleses, belgas, franceses, italianos e americanos, a nossa vizinha Espanha é, tal como já sucedeu na série II, a nação mais representada, com mais de um terço dos quinze volumes publicados nesta terceira série, a serem oriundos do país de “nuestros hermanos”.
Entre os autores desses volumes, naturais das mais diversas regiões de Espanha, estão nomes bem conhecidos dos leitores portugueses, como o galego Miguelanxo Prado, cujo último trabalho, Presas Fáceis, publicado na colecção anterior, arrecadou o Prémio de Melhor Livro Estrangeiro, no último AmadoraBD, que está de volta com o seu título mais premiado, Traço de Giz; o valenciano Paco Roca, que depois de O Inverno do Desenhador e A Casa, regressa com Os Trilhos do Acaso, uma história de grande fôlego (tão grande que teve de ser dividida por dois volumes) sobre um grupo de combatentes republicanos espanhóis, que vão participar activamente na libertação de Paris pelas tropas Aliadas, nos finais da Segunda Guerra Mundial; e o catalão Francesc Capdevila Gisbert, mais conhecido por Max que, com Vapor, continua a explorar o mundo surrealista que criou em Bardin, onde se cruzam as influências do cineasta Luis Buñuel, da BD e da animação dos anos 30 e da pintura de Hieronimus Bosch.
Mas se os autores atrás referidos são nomes incontornáveis do panorama actual da Novela Gráfica espanhola, cuja obra tem sido mais (no caso de Prado e Roca) ou menos (no que se refere a Max) divulgada em Portugal, já Bartolomé Segui, Gabi Beltran e Tomeu Pinya, são autores espanhóis cujo trabalho chega finalmente a Portugal graças a esta colecção. Beltran é um autor e ilustrador natural de Palma de Maiorca, que, em Histórias do Bairro se associa ao desenhador Bartolomé Segui (também ela maiorquino), para narrar, com grande sensibilidade, mas sem tabus, uma adolescência de marginalidade passada no Bairro Chinês de Palma de Maiorca, mas que se poderia passar em Barcelona, ou Lisboa. Finalmente, Tomeu Pinya, autor nascido em Palma de Maiorca, mas residente na Catalunha, tem uma estreia fulgurante em Uma Aldeia Branca – O Bar do Barbudo, com um relato que lhe valeu o Prémio Revelação no Salon del Comic de Barcelona de 2010, que se pode definir como uma matrioska de histórias, sobre Rafa, o proprietário de um bar numa aldeia qualquer de uma ilha perdida no Mediterrâneo e sobre os seus clientes e as histórias que eles têm para partilhar.
Através das obras de um autor galego, um valenciano, um catalão (radicado em Palma de Maiorca) e três maiorquinos, é possível ver que a Novela Gráfica espanhola não se restringe à Catalunha, ou ao País Basco, onde estão instaladas as principais editoras de BD do país vizinho, mas que passa também por locais como a Galiza, ou Palma de Maiorca, cuja dinâmica cultural e incentivo à divulgação da produção local se reflecte também no conteúdo desta série III das Novelas Gráficas.

A COLECÇÃO

1 –Ronin 
30 de Junho
Argumento e Desenhos – Frank Miller
Um samurai desonrado do século XIII renasce numa Nova Iorque futurística e distópica, para tentar a sua última hipótese de redenção: encontrar, confrontar e derrotar o demónio Agat, responsável pela morte do seu mestre. Mas na Manhattan violenta do século XXI as coisas não são bem o que parecem e Ronin terá de se unir a Billy Chalas, um jovem com poderes telecinéticos, para conseguir destruir Agat.
Criador de Sin City, 300, Batman: O regresso do Cavaleiro das Trevas, Demolidor: Renascido e Elektra Assassina, entre muitos outros títulos que revolucionaram o mundo da BD, o escritor, desenhador e cineasta Frank Miller é uma lenda viva dos comics americanos e Ronin foi uma obra pioneira e uma das primeiras novelas gráficas lançadas no mercado americano.

2 – Traço de Giz
07 de Julho
Argumento e Desenhos – Miguelanxo Prado
Um marinheiro chega a uma pequena ilha perdida no oceano, onde apenas existem dois habitantes, um farol que não funciona, uma pequena estalagem e alguns visitantes ocasionais. Uma narrativa aparentemente simples, com um toque de realismo mágico, sobre desencontros, incompreensões, sonho ou realidade.
Miguelanxo Prado é um dos mais premiados autores espanhóis. Traço de Giz foi um dos seus maiores sucessos críticos e comerciais e a sua obra mais premiada, entre os quais, com o prémio de Melhor Álbum no Salão do Comic de Barcelona e o de Melhor Álbum Estrangeiro em Angoulême. Esta nova edição inclui uma extensa galeria de extras e páginas de BD inéditas.

3 – Os Ignorantes
14 de Julho
Argumento e Desenhos – Étienne Davodeau
Davodeau é autor de banda desenhada e não sabe grande coisa de vinhos. Richard Leroy é viticultor e quase nunca leu BD. Mas ambos têm boa vontade e muita curiosidade. Porque é que uma pessoa decide dedicar-se a escrever e desenhar livros de BD, ou a cultivar vinho? Durante mais de um ano, irão ambos descobrir as respostas a essas e outras perguntas, abrindo muitas garrafas de vinho, e lendo imensos livros. Étienne trabalhou nas vinhas, e Richard mergulhou no universo da narrativa sequencial. O resultado é uma história de amizade e iniciações cruzadas e um momento único de felicidade.
Étienne Davodeau é um dos maiores autores da BD francesa actual, conhecido pelas suas obras firmemente ancoradas no real, tendo vencido por duas vezes o prémio France Info de BD de Reportagem.

4 –Batman: Uma História Verdadeira
21 de Julho
Argumento – Paul Dini 
Desenhos – Eduardo Risso
Batman vai ajudar um homem desencorajado a recuperar de um ataque brutal que o deixou incapaz de enfrentar o mundo.
Nos anos 90, o premiado escritor Paul Dini estava no auge da sua carreira com a popular série Batman: The Animated Series. Uma noite, a caminho de casa, foi assaltado e fortemente espancado, ficando às portas da morte. A recuperação foi lenta e complicada, e Dini imaginou que o Batman sempre esteve ao seu lado, mesmos nos momentos mais difíceis.
Uma história de Batman como nenhuma outra, ilustrada com a incrível arte do talentoso desenhador argentino Eduardo Risso (Batman Noir, Parque Chas)

5 – Polina
28 de Julho
Argumento e Desenho – Bastien Vivés
A história de uma jovem bailarina e a sua relação com o seu professor, contada com grande elegância e simplicidade por Bastien Vivés, um jovem prodígio da BD franco-belga, co-criador da popular série Last Man.
Polina é uma obra-prima de grande leveza e graciosidade e ainda assim densa em conteúdo, considerada como a melhor novela gráfica de Bastien Vivés, tendo vendido mais de 40.000 cópias em França e merecido uma adaptação ao cinema, que estreia em Portugal em Julho.

6 – K.O. em Telavive
04 de Agosto
Argumento e Desenho – Asaf Hanuka
Como é que se pode ser israelita? Como é que se pode viver num país sempre em guerra?
Tel Aviv é uma cidade vibrante, cheia de prazeres, e com uma das cenas artísticas mais vibrantes do mundo, um Sin City dentro de Jerusalém.
Invocando a sua condição de artista, pai, marido ou cidadão israelita, Asaf Hanuka retrata o dia-a-dia do seu país, mas não só. Apresenta-nos todos os ícones dos nossos dias, desde o cubo Rubik aos Transformers, do Iphone ao Facebook de uma forma que deixa os leitores… K.O.

7 – Dylan Dog: Mater Morbi
11 de Agosto
Argumento – Robertto Recchioni 
Desenho – Massimo Carnevale
Quando uma doença tão estranha como repentina atinge Dylan Dog, parece que nada será capaz de o curar. A sua única hipótese de salvação consiste em confrontar Mater Morbi, a entidade que se alimenta do seu sofrimento e acompanhá-la numa viagem ao coração das trevas e da dor.
Série de culto e verdadeiro fenómeno cultural, a série Dylan Dog, criada por Tiziano Sclavi em 1986 é um bom exemplo dos fumetti italianos. Actual responsável editorial pela série, Roberto Recchioni assina em Mater Morbi uma das melhores histórias de Dylan Dog das últimas décadas, muito graças ao notável trabalho gráfico de Massimo Carnevale.

8 –Vapor
18 de Agosto
Argumento e Desenhos – Max
Vapor, um eremita exilado num estranho deserto bastante frequentado, enfrenta a tentação sobre as mais diversas formas, numa história surrealista, entre o minimalismo e o género fantástico, marcada por um humor delirante.
Criador de Peter Punk, editor da revista Nosotros Somos los Mortos, um dos nomes maiores da revista El Vibora e colaborador frequente da revista New Yorker, o catalão Max, na sua fúria contra o mundo e no seu carinho pela arte dos comics, criou um heroísmo perfeito; tão absurdo que dói no nervo exacto onde a arte se deve sentir.

09 –  Os Livros de Magia
25 de Agosto
Argumento – Neil Gaiman
Desenhos – John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess e Paul Johnson
Neil Gaiman, o premiado escritor que é presença habitual na lista de best-sellers do New York Times e criador do Sandman, traz-nos um conto fascinante sobre os perigos e oportunidades da juventude e suas infinitas possibilidades. Ilustrado por quatro dos artistas mais consagrados de língua inglesa, John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess e Paul Johnson, Os Livros da Magia recolhe os quatro números da minisérie original publicada pela Vertigo, que introduziu o personagem de Timothy Hunter e preparou o palco para a sua revista mensal.

10 –  Histórias do Bairro
01 de Setembro
Argumento – Gabi Beltran 
Desenhos – Bartolomé Segui
Palma de Maiorca, anos 80. Cada esquina do bairro chinês tem uma história que contar.
Gabi, o ainda adolescente protagonista, anda pelas ruas do seu pequeno mundo com os seus amigos Benjamim, Arnaud, Falen e Ramos, tratando de entendê-lo. Assim experimenta drogas, descobre o sexo, refugia-se na literatura e no desenho. Mais unido aos amigos do que à família, descobre que as diferenças sociais são também fronteiras, e que estas por vezes são inultrapassáveis.
Um relato autobiográfico de Gabi Beltran a que Bartolomé Segui dá vida com os seus desenhos.

11 – Tempos Amargos
08 de Setembro
Argumento e Desenhos – Etienne Schréder
História autobiográfica sobre os problemas do autor com o alcoolismo, que o levaram a abandonar tudo e a viver como sem-abrigo. O alcoolismo é uma doença que afecta milhares de pessoas. Difícil de tratar, é um assunto cuja evocação roça o tabú. Porque há uma realidade que não se pode romantizar, Schréder oferece a experiência da sua jornada para o fim da vida.
Professor de BD e director da Maison Autrique, Étienne Schréder é um dos actuais desenhadores da série Blake & Mortimer e autor do álbum O Segredo de Coimbra.

12 – Os Trilhos do Acaso Vol 1 
15 de Setembro
Argumento e Desenhos – Paco Roca
Através das recordações de Miguel Ruiz, republicano espanhol exilado em França, Paco Roca reconstrói a história de La Nueve, a companhia sob comando do Capitão Dronne integrada na segunda divisão do General Leclerc, e formada maioritariamente por espanhóis republicanos, exilados em Marrocos, após a vitória de Franco.
Uma história apaixonante e esquecida, sobre a contribuição espanhola na Segunda Guerra Mundial, contada com o talento e a eficácia habituais em Paco Roca (O Inverno do Desenhador, A Casa).

13 – Os Trilhos do Acaso Vol 1I
22 de Setembro
Argumento e Desenhos – Paco Roca
A história de Miguel Ruiz e dos outros membros da companhia La Nueve prossegue neste segundo volume, centrado no regresso da companhia à Europa e na sua participação activa na libertação de Paris pelas tropas aliadas.
Um dos mais recentes e premiados trabalhos de Paco Roca, galardoado com o Prémio Zona Cómic, Melhor Obra Nacional del Salón del Cómic de Barcelona e o Romics do Salão de Comic de Roma, em 2014

14 – Uma Aldeia Branca: O Bar do Barbudo
 29 de Setembro
Argumento e Desenho – Tomeu Pynia
A insaciável curiosidade de um empregado de bar é a desculpa perfeita para nos introduzir numa série de histórias que tecem um tapete de relações humanas.
O Bar do Barbudo guia-nos através de uma aldeia e do seu bar, de que é o centro e a bandeira. Uma história de histórias salpicada de Mediterrâneo. Uma história de carácter intimista, ritmo calmo e com espaço para reflexão, nostalgia e humor.
Obra de afirmação do talento do catalão Tomeu Pynia, galardoada com o Prémio Popular Autor Revelação no Salón del Cómic de Barcelona, em 2010.

15 – O Idiota
06 de Outubro
Argumento – Dostoevsky e André Diniz
Desenhos – André Diniz
O Idiota é uma inesperada adaptação em BD do romance do escritor russo Fiódor Dostoyevsky, contada por imagens, usando a linguagem visual exclusiva da BD, num registo em que o texto está praticamente ausente. Um verdadeiro tour-de-force narrativo, assinado por um dos mais premiados autores brasileiros contemporâneos. André Diniz é argumentista e ilustrador de BD, estando a residir actualmente em Portugal, país onde O Idiota será lançado em rigorosa estreia mundial.
Textos publicados originalmente no destacável distribuído com o jornal Público de 29/06/2017

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Mulher-Maravilha 5 - Deuses de Gotham

A BATALHA POR GOTHAM ENCERRA A COLECÇÃO 
DEDICADA À MULHER-MARAVILHA

Mulher-Maravilha – Vol 4
Deuses de Gotham
Argumento – Phil Jimenez e J. M. De Matteis
 Desenhos –  Phil Jimenez e Andy Lanning
Quinta, 22 de Junho, Por + 11,90 €
Depois de, no volume anterior, o leitor ter tido oportunidade de descobrir a Mulher-Maravilha de George Pérez, o destaque do volume final desta colecção vai para o seu mais inspirado discípulo, Phil Jimenez, que escreveu e desenhou a revista da Mulher-Maravilha durante três anos.
Deuses de Gotham, a história principal do volume que chega às bancas na próxima quinta-feira, marca o início da passagem marcante de Jimenez pela série mensal da Mulher-Maravilha, em que, tal como Pérez tinha feito em Deuses e Homens, explora a ligação entre os Deuses da mitologia clássica e os heróis do panteão da DC, com a cidade de Gotham, que o Batman jurou proteger, a ser alvo do ataque dos filhos de Ares o deus da guerra, Deimos, Éris e Fobos, deuses da discórdia, do medo e do terror, que combinam as suas essências com as do Joker, do Espantalho e da Hera Venenosa, ao mesmo tempo que manipulam outro vilão do universo do Batman, Maxie Zeus, que se julga descendente dos Deuses gregos.
E quando os deuses também conseguem possuir o Batman, a Princesa Amazona descobre que mesmo a ajuda de outros protectores de Gotham, como a Caçadora, o Asa Nocturna e o Robin, bem como de outras amazonas, como Artemisa, Tróia (a seu própria protegida, Donna Troy) e Cassie Sandsmark, a terceira Wonder Girl, podem não ser suficientes para acabar com o reinado maligno dos deuses do submundo.
Se este encontro entre a Princesa Amazona e o Cavaleiro das Trevas permitiu dar a descobrir a Mulher-Maravilha aos leitores de Batman, a verdade é que os editores da DC tiveram algum receio de entregar o seu personagem mais popular a um jovem autor como Jimenez, impondo a presença do veterano J. M. De Matteis no argumento. Mas deixemos que seja o próprio Jimenez a explicar como tudo se passou: “O que aconteceu foi que eu queria usar Batman e sua família, e na época havia pessoas responsáveis na DC que, apesar de algumas coisas que eu escrevi terem sido bastante bem-sucedidas, não sentiram que eu poderia lidar com os personagens de Batman por conta própria, então acabei por ter um co-argumentista. Além disso, o material em si era sobre fé e religião, e eles queriam alguém, como J. M. De Matteis, que pudesse lidar com esse material.
Na verdade, acho que a melhor coisa que ele fez, o meu momento favorito durante esse arco de histórias, foi o diálogo entre a Caçadora e Artemisa sobre a fé em Deus. Isso foi óptimo. Foi uma experiência de trabalho estranha, apenas porque os primeiros dois números foram definitivamente um período de ajustamento, e eu tinha prazos muito, muito apertados.”
Apesar destes constrangimentos, Jimenez cria uma história de acção com um fôlego épico, que tem a correspondência visual adequada no seu traço detalhado, muito bem servido pela arte-final de Andy Lanning.
A terminar o livro, temos o momento de calma após a tempestade, numa história intimista em que Lois Lane entrevista Diana, dando a conhecer a mulher por trás da heroína e guerreira.
Publicado originalmente no jornal Público de 17/06/2017

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Mulher Maravilha 4 - Homens e Deuses


A MULHER-MARAVILHA DE GEORGE PÉREZ 
CHEGA AO PÚBLICO

Mulher-Maravilha: Homens e Deuses
Argumento – LenWein e George Pérez
Desenhos – George Pérez
Quinta, 15 de Junho, Por + 11,90 €
De entre os inúmeros autores cujo talento ficou ligado às aventuras da Mulher-Maravilha, ao longo dos setenta e cinco anos de existência da Princesa Amazona, há um nome que brilha mais do que outros e que muitos leitores associam imediatamente à mais importante (e popular) heroína da DC: o de George Pérez 
Nascido em Nova Iorque em 1954, George Pérez estreou-se na BD em 1973, como assistente do desenhador Rick Buckler, mas um ano depois já trabalhava regularmente para a Marvel. Apesar de ter trabalhado em séries como os Avengers e Fantastic Four, da Marvel, os trabalhos mais importantes da sua carreira foram publicados na DC, onde para além de ter desenhado a saga cósmica Crise nas Terras Infinitas, (já publicada numa anterior colecção que o Público e a Levoir dedicaram à editora de Batman e do Super-Homem) que revolucionou profundamente o universo da DC teve passagens memoráveis por séries como Teen Titans e sobretudo pela Mulher-Maravilha, cujas aventuras desenhou durante cinco anos inesquecíveis e cuja origem reinventou nas histórias que este volume, que chegará às bancas na próxima quinta-feira, recolhe.
Reunindo os sete primeiros números da segunda série da revista da Mulher-Maravilha, publicados originalmente entre Fevereiro e Agosto de 1987, Deuses e Homens centra-se, tal como o título indica, na relação entre os Deuses da mitologia grega, que criaram a Mulher-Maravilha e a humanidade cujo futuro está perigo, face aos planos de Ares, o Deus da Guerra e inimigo jurado das amazonas, que só a Mulher-Maravilha conseguirá derrotar.
A própria Patty Jenkins, a directora do filme da Mulher-Maravilha, que está a ser um estrondoso sucesso, tanto crítico como comercial, é a primeira a reconhecer a grande influência da fase de Pérez no filme e a maneira como ele conseguiu dar um destaque maior à mitologia clássica, mantendo-se fiel à herança de Marston. Como refere Jenkins: ““Eu acho que (o mais importante da fase de Pérez) foi o facto de ele expandir o papel dos deuses. Ele esteve sempre lá - nada que ele fez, contradiz o que William Marston fez e criou, acho que só expandiu e demonstrou quem são os deuses. Qual é essa relação e como é que ela funciona. O que foi uma coisa maravilhosa para nós usarmos no filme.”
Essa importância da origem mitológica de Diana e das outras Amazonas, é evidente em Temiscira, a ilha Paraíso das Amazonas, que finalmente ganhou um nome (o mesmo da cidade das Amazonas da mitologia grega clássica),e passou de mero cenário a um espaço que se assume ele próprio como personagem das histórias.
O mesmo acontece com os Deuses do Olimpo, cujo comportamento está mais próximo do descrito pelas fontes literárias clássicas, como Homero ou Ovídio, ganhando personalidades complexas e bruscas (e perigosas) oscilações de humor. Basicamente, como refere José Pedro Castello Branco, no prefácio a este volume: “ Pérez solidificaria os nomes dos protectores das Amazonas nas suas versões originais, as gregas. Teríamos Afrodite e não Vénus. Atena e não Minerva. Zeus e não Júpiter. A mitologia grega regressaria à versão original, como se este mundo da BD fosse uma continuação das epopeias clássicas.”
Sendo fiel às epopeias clássicas, o mundo que Pérez cria para a série não deixa de ter um toque pessoal, pleno de espectacularidade, bem evidente nos cenários grandiosos. Veja-se a sua versão do Monte Olimpo, com as suas grandiosas arquitecturas escherianas, ou a sua versão do rio Estige e da Barca de Caronte. Extraordinário desenhador clássico, com um traço tão elegante como detalhado, George Pérez tem aqui um dos seus melhores trabalhos de sempre que, trinta anos após a sua publicação original, se lê com inegável prazer. No fundo, é essa capacidade de resistir com distinção à passagem do tempo, que define um verdadeiro clássico.
Publicado originalmente no jornal Público de 10/06/2017

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Inaugura quarta-feira exposição de antevisão da História de Loulé em BD

Vai ser inaugurada na próxima quarta-feira, dia 14 de Junho, no pátio da Alcaidaria do Castelo de Loulé (onde está instalado o Museu Municipal) uma exposição de antevisão do livro Os Segredos de Al-'Ulyà: Uma História de Loulé em BD, que tenho estado a fazer com o João Ramalho Santos no argumento e o André Caetano nos desenhos.  
O livro ainda não tem data de lançamento marcada (depende de quando o André o acabar de desenhar e da agenda da própria Câmara Municipal de Loulé) mas para começar a dar a conhecer o projecto, temos a exposição Aventuras em Al'Ulyà que inaugura já no dia 14 e será visitável até ao dia 18 de Novembro, com excepção dos dias 29 de Junho a 2 de Julho e 4 a 6 de Agosto, em que a exposição será retirada para dar lugar a um dos palcos do Festival Med e  do Festival de Jazz de Loulé.
O projecto inicial para a exposição era mais ambicioso, pois pretendíamos colocar os originais do livro em diálogo com os objectos do Museu Municipal que contam a história de Loulé, mas como algumas zonas do museu estão a ser intervencionadas, tivemos que optar por uma solução mais simples, à base de painéis com reproduções colocados ao ar livre, que desvendam um pouco do que vai ser o livro, ao mesmo tempo que dão a descobrir aos visitantes algumas curiosidades sobre a história da cidade algarvia.
Mais tarde, conto aqui deixar  algumas fotografias da exposição e da sua inauguração, mas até lá, em jeito de teaser, deixo-vos com uma página desenhada pelo André já passada a tinta, mas ainda sem a aplicação da cor.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Mulher-Maravilha 3: A Hiketeia


A MULHER-MARAVILHA ENFRENTA O BATMAN 
NA ESTREIA DE GREG RUCKA COMO ESCRITOR

Mulher-Maravilha: A Hiketeia
Argumento – Greg Rucka
Desenhos – J. G. Jones
Quinta, 08 de Junho, Por + 11,90 €
Ao longo dos seus mais de setenta e cinco anos de história (e de grandes histórias), vários foram os escritores que marcaram profundamente a evolução da Mulher-Maravilha, começando pelo seu criador, William Moulton Marston e passando por autores como George Pérez,  Phil Jimenez, Brian Azzarello e Greg Rucka. E é precisamente Greg Rucka o autor de A Hiketeia, a história que preenche o volume que chega às bancas na próxima quinta-feira.
Publicada originalmente em 2002 no mercado americano como uma novela gráfica em capa dura, A Hiketeia marcou o início da longa ligação de Greg Rucka à Mulher-Maravilha, personagem que escreveu durante três anos, entre 2003 e 2006, e de que é o actual escritor da revista mensal, após a mais recente remodelação do Universo DC, com a linha DC Rebirth.
Bem conhecido dos leitores portugueses, graças à sua colaboração com J. H. Williams III em Elegia, uma história protagonizada pela Batwoman, publicada numa anterior colecção que a Levoir e o Público dedicaram ao Universo DC, Rucka é um argumentista conhecido pela sua capacidade única de escrever personagens femininas fortes, o que é bem evidente neste Hiketeia. Mais do que uma simples aventura da Mulher-Maravilha, Rucka escreveu uma tragédia grega. Uma história contemporânea, centrada num antigo ritual de protecção grego, a Hiketeia, que estabelece, entre o suplicante e o protector, um laço sagrado, mais forte do que a lei dos homens, a que só a vontade do suplicante pode pôr fim.
Neste caso, Diana aceita proteger, da lei e do próprio Batman, Danielle Wellis, uma jovem procurada por homicídio, mesmo que isso a obrigue a enfrentar o Cavaleiro das Trevas e a fúria justiceira das Eríneas, as três Parcas da mitologia grega, que, como vimos no Sandman, de Neil Gaiman, castigam duramente aqueles que infringem a lei dos Deuses.
A presença do Batman (cujas aventuras Rucka escreveu durante mais de 10 anos na revista Detective Comics) nesta história, para além de permitir o confronto entre dois dos maiores heróis do Panteão da DC, vem mostrar o dilema, o conflito interior, que que atormenta a Mulher-Maravilha desde a sua criação: como conciliar a lei divina que jurou proteger, com as leis dos homens, de que Batman é o representante.
Ao lado de Greg Rucka nesta sua primeira incursão pelo universo da Mulher-Maravilha, está o desenhador J. G. Jones, que os leitores portugueses conhecem do volume da Viúva Negra (em que, curiosamente, Rucka escrevia a outra história que compunha o volume), publicado numa colecção dedicada à Marvel, e da mini-série Wanted, de Mark Millar. Jones, que é senhor de um traço realista, dinâmico e elegante e de um excelente sentido de planificação, bem evidente nas espectaculares duplas páginas, ou na forma, tão eficaz como inesperada, como incorpora elementos da arte grega nas páginas iniciais, contribuiu decisivamente para que, também no que ao desenho diz respeito, A Hiketeia seja considerada por muitos leitores como uma das melhores histórias de sempre da Mulher-Maravilha.
Publicado originalmente no jornal Público de 02/06/2017

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Mulher-Maravilha 2 - Um por Todos

A AMAZONA E O DRAGÃO

Mulher-Maravilha: Um por Todos
Argumento e Desenhos – Christopher Moeller
Quinta, 01 de Junho, Por + 11,90 €
Depois de, na semana passada, Grant Morrison nos ter proporcionado uma visão actualizada da origem da Mulher-Maravilha, Um por Todos, a história de Christopher Moeller que chega aos quiosques na próxima quinta-feira, no preciso dia em que o filme da Mulher-Maravilha chega às salas de cinema, é algo bastante diferente: uma fábula épica, com ninfas, gnomos, dragões e super-heróis, magnificamente pintada por Moeller, na linha de mestres da fantasia como Frank Frazetta, Boris Vallejo, ou Richard Corben.
Nascido em 1963, perto de Nova Iorque, o escritor e pintor americano Christopher Moeller, após ter contemplado a sua formação académica em pintura e ilustração começou a sua carreira profissional na Innovation Comics, com a mini-série Rocketman: King of the Rocketmen. Dividido em BD e a ilustração, Moelller desenhou e pintou mais de cem cartas do jogo Magic: The Gathering, fez ilustrações para o jogo World of Warcraft, e pintou capas da série Star Wars para a Dark Horse e da revista Shadow of the Bat, protagonizada pelo Batman, para a DC, para além de ter escrito e desenhado a série Iron Empires, publicada inicialmente pela Dark Horse, que já deu origem a três novelas gráficas e a um jogo de roleplay ilustrado pelo próprio Moeller, Burning Empires, de grande sucesso.
Um por Todos, a novela gráfica que poderão descobrir já na próxima quinta-feira, nasceu, como muitos outros projectos na indústria dos comics, na sequência de um jantar na Comic Con de San Diego. No caso concreto, Moeller estava a jantar com o editor da DC, Dan Raspler que o convidou para fazer uma novela gráfica com a sua personagem favorita da DC. A escolha imediata de Moeller foi a Mulher-Maravilha mas, como Raspler era o editor da Liga da Justiça e queria acompanhar o projecto de perto, pediu a Moeller para transformar a história numa aventura da Liga, de modo a poder ser o editor do livro.
O resultado é uma história da Liga da Justiça em que a Mulher-Maravilha, que nas primeiras aventuras da Sociedade da Justiça (a antecessora da Liga, nos anos 40) era quase só uma figurante de luxo, assume agora o protagonismo, conspirando para afastar os restantes membros da Liga, como o Batman, Flash, Lanterna Verde, Caçador Marciano, Aquaman e Super-Homem, de uma missão que o Oráculo de Delfos tinha previsto que lhes seria fatal: combater um poderoso dragão acabado de despertar de um sono de séculos e que se preparava para destruir o Mundo.
Indo beber às lendas nórdicas que inspiraram Richard Wagner para a sua trilogia de óperas sobre Siegfred e o Anel dos Nibelungos, que Tolkien vai reinterpretar e adaptar no seu Senhor dos Anéis, Moeller junta a esse imaginário, elementos da mitologia clássica em que se ancora a origem da Princesa Diana de Temiscira, como as ninfas, ou o Oráculo de Delfos, transpondo todos esses elementos para o universo dos super-heróis que conhecemos. A mistura de todos estes diferentes ingredientes podia dar origem a um prato indigesto, mas Christopher Moeller mostra-se um cozinheiro de mão firme e cria uma iguaria rara: uma história de super-heróis do século XXI que respeita os heróis que a protagonizam, e que é simultaneamente uma fábula intemporal.
Publicado originalmente no jornal Público de 26/05/2017