quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O Terror segundo Scott Snyder


Para abrir este ano de 2018, recupero o texto que publiquei na Bang! nº 23, lançada precisamente no 1º Festival Bang! Dedico este texto à Safaa Dib, que aturou os meus atrasos no envio dos textos durante todos estes anos e que partiu para outras aventuras. Mas a revista Bang! não vai acabar e a Safaa vai ser muito bem substituída pelo Boss himself, o Luís Corte Real. 
Boa leitura e Bom Ano!

O TERROR SEGUNDO SCOTT SNYDER

Um dos nomes maiores dos comics americanos, responsável, com Greg Capullo, de algumas das melhores histórias do Batman da última década, Scott Snyder é ainda assim, muito mais um escritor de terror do que de histórias de super-heróis, algo que a recente publicação, pela G Floy, de Wytches em edição nacional, vem demonstrar.
Nascido e criado em Nova Iorque Scott Snyder descobriu que queria ser escritor e contar histórias aos nove anos, quando um monitor num campo de férias lhe deu a descobrir o livro Eyes of the Dragon, de Stephen King, escritor que, como veremos está profundamente ligado à carreira de Snyder. Apesar de se ter formado em Literatura Criativa pela Universidade de Brown em 1998, o seu primeiro emprego foi na Florida, no Disney World, onde trabalhou nas limpezas e como figurante, tendo vestido os fatos de espuma de diversas personagens da Disney, com destaque para o astronauta Buzz Lightyear do filme Toy Story. Quando se preparava para ir trabalhar na Disneyland de Tóquio como Príncipe Encantado, um amigo convenceu-o a regressar a Nova Iorque e aos estudos, acabando por fazer um Mestrado em Belas Artes na Universidade de Columbia em 2002.
Por estranho que possa parecer, o ano que passou na Disney World foi importante para a sua carreira de escritor, pois como refere: “essa experiência fez muito bem à minha escrita... Tudo o que eu acabei por escrever, as coisas que me assustam profundamente: o medo do compromisso e do crescimento, medo de perder as pessoas amadas, o maravilhamento e o terror de estar apaixonado – tudo isso estava constantemente em jogo ao meu redor nessa maneira estranha, animada e ampliada da Disney.”
Ainda antes de se dedicar à BD, Snyder estreou-se como escritor em 2006 com Voodoo Heart, uma recolha de contos de terror, dois dos quais, Wreck e Dumpster Tuesday, foram seleccionados por Stephen King para a antologia The Best American Short Stories, de 2007. O mesmo Stephen King que vai colaborar com Snyder em American Vampire, a série que este último lançou na Vertigo em 2010 e que o tornou um nome popular e prestigiado junto dos leitores de comics.
A admiração de Snyder por King estende-se também ao cinema e aos filmes baseados nos livros do escritor, pois como refere “The Shinning provavelmente é um dos meus três filmes favoritos, porque é Kubrick e Stephen King no seu melhor. Ele é tão bom, pegando numa coisa que é um totem de segurança, que encontras em tua casa, como o teu pai no Shinning, ou o teu carro em Christine, ou o teu cão em Cujo e transforma essas coisas em algo maligno. Não há nada mais assustador do que quando estabeleces essa conexão emocional. A ideia de teu pai vir atrás de ti com um machado é tão assustadora. Tanto para uma criança como para um adulto.”
Depois dessa estreia como escritor, apadrinhada por King, Snyder acaba por concretizar o seu sonho de escrever BD, estreando-se na Marvel em 2009 assinando o argumento de Iron Man: Noir e de Human Torch 70th Anniversary Special, dois trabalhos sem continuidade, pois será na linha Vertigo da editora DC que o escritor vai encontrar a sua casa.
Como não podia deixar de ser, a estreia de Snyder na Vertigo faz-se reinventando um mito clássico do terror, as histórias de vampiros, com American Vampire, série criada em 2010 com o brasileiro Rafael Albuquerque, que apresenta uma nova estirpe de vampiros, resistente à luz solar, representada por Skinner Sweet, um carismático (e sádico) pistoleiro, cuja existência é uma afronta ao poder das velhas elites de vampiros europeus. Mais uma vez, Stephen King dá a mão a Snyder, assinando uma história complementar sobre a origem de Skinner no Velho Oeste, publicada como complemento nos primeiros cinco números da série.
O sucesso de American Vampire levou à criação de uma antologia em que outros criadores de renome, como Jason Aaron, Fabio Moon e Gabriel Bá e o italiano Ivo Milazzo têm oportunidade de explorar o universo criado por Snyder e Albuquerque, para além das mini-séries paralelas que permitem explorar um pouco melhor esse universo, ilustradas por outros desenhadores, como Sean Gordon Murphy (American Vampire: Survival of the Fittest) e Dustin Nguyen (American Vampire: Lord of Nightmares) e de uma história solta, The Long Road to Hell, em que Rafael Albuquerque também participa na escrita.
Embora os autores tenham abandonado temporariamente a série no final do segundo ciclo, prometeram voltar para um terceiro e último ciclo, ainda sem data marcada, face à agenda carregadíssima dos dois criadores.
Com a reformulação do Universo DC originada pela Linha New 52, Snyder vai estar em destaque assinando a série principal do Batman, ao lado de Greg Capullo e uma nova versão de Swamp Thing - o Monstro do Pântano criado por Len Wein e Bernie Wrightson, que Alan Moore veio reinventar - em colaboração com Yannick Paquette. Contando com o excelente sentido de composição e planificação de Paquette; Snyder faz o contrário de Mooore, trazendo Alec Holland para o centro da história.
A sua passagem marcante pelo Batman, já tinha sido iniciada antes com Black Mirror, uma história publicada na revista Detective Comics, ilustrada por Jock e por Francesco Francavilla, com Dick Grayson como Batman, em que Snyder transforma o filho do Comissário Gordon num perigoso psicopata.
Depois do sucesso de Black Mirror, a presença de Snyder no bat-universo prosseguiu com Batman: Gates of Gotham, uma série limitada escrita em co-autoria com Kyle Higgins que aborda a história secreta de Gotham City. Mas foi na linha DC New 52 que Snyder enriqueceu definitivamente a mitologia da personagem, criando a Corte das Corujas e deu uma nova vida a um vilão clássico como o Joker, que esteve “desaparecido” do universo DC durante um ano, após ter visto a sua cara arrancada pelo Bonecreiro, um vilão menor do universo DC. Essa história, Death of the Familly, publicada em Portugal pela Levoir, com o título O Regresso do Joker, é uma das melhores histórias do Batman assinada por este escritor e um exemplo perfeito de como criar uma história de terror usando super-heróis. Nela, depois de um ano desaparecido, planeando o seu regresso, o Joker está de volta, para atacar o Batman através daqueles que lhe são queridos, mas primeiro vai recuperar o seu rosto, numa impressionante sequência, em que, jogando com as sombras e sugerindo muito mais do que mostram, Snyder e Capullo criam momentos de puro terror. Texas Chain Saw Massacre, de Tobe Hopper.
Momentos que culminam, no final do primeiro capítulo, com a revelação da nova imagem do Joker, em que o rosto que perdeu se transforma na sua máscara, uma máscara presa à carne viva por correias de couro. Uma imagem fortíssima, que não consegue deixar de evocar um ícone do terror cinematográfico, o personagem Leatherface do filme
E se virmos bem, mais do que uma saga de super-heróis, este O regresso do Joker, é uma história de terror psicológico, o que acaba por ser natural, pois tanto Scott Snyder como Greg Capullo têm grandes ligações ao género. E O Batman não foi o único personagem clássico da DC a receber o tratamento especial de Snyder. Superman Unchained, a mini-série que Snyder escreveu para Jim Lee, explora o lado sombrio do Homem de Aço. Mais uma vez, o escritor não esconde o jogo: “mesmo que não haja nenhum gore ou horror explicito, até porque aqui ninguém corta a cara, ou qualquer coisa do género, mas, ao mesmo tempo, definitivamente há horror psicológico no livro. As minhas histórias favoritas são aquelas em que os personagens têm que enfrentar os seus piores pesadelos. Portanto, esta história ode não ter os cenários góticos de Gotham ou a escuridão americana de Swamp Thing, mas tem muitos aspectos sombrios e algumas situações horríveis.
Eu sempre me inclinei para os personagens mais sombrios de certa forma. É por isso que acho que o Superman deve ser muito divertido. Amo o personagem e acho que não podia perder a oportunidade de fazer alguma coisa de natureza sombria com ele.”
Também o seu projecto seguinte para a Vertigo, The Wake, uma mini-série em 10 números iniciada em 2013, em que volta a colaborar com Sean Murphy, misturava o horror com outro género, neste caso a ficção científica. Como o próprio referiu numa entrevista: “o meu novo livro, The Wake, é uma história de terror sombrio, misturado com ficção científica, na tradição de alguns dos meus filmes favoritos. O ponto de partida é uma descoberta feita no fundo do oceano que encerra as chaves para a compreensão dos oceanos e a sua mitologia. Uma mitologia que existe há milhares de anos em diferentes culturas. E essa descoberta acaba por ser verdadeiramente aterrorizadora.”
Se esta história de terror com sereias tem um toque lovecraftiano, não é por acaso, pois, confessa Snyder: “Sou um grande fã de Lovecraft. Estudei em Providence onde ele está sepultado e li montes de livros dele nessa altura e continuei a ler depois disso. Lovecraft está no ADN de The Wake.”
Como a maioria dos grandes criadores de comics americanos, também Snyder, apesar de ter um contrato de exclusividade com a DC, acabaria por publicar na Image, que é, indiscutivelmente, a editora mais excitante da actualidade. A estreia nessa editora dá-se com Severed, uma mini-série passada nos anos da Grande Depressão, sobre um miúdo que anda à boleia pelos Estados Unidos e que conhece um velho vagabundo que é também um serial killer, ilustrada por Scott Tuft, um amigo de infância de Snyder, cujo estilo mais clássico e realista se adequa bem à história que, até no jovem protagonista, tem um toque kinguiano.
 Mas a sua mais conseguida incursão pelo terror puro e duro e o pretexto para este texto, foi Wytches, em que Snyder volta a trabalhar com Jock, o desenhador de The Black Mirror, aplicando às bruxas um tratamento ainda mais inovador do que o sofrido pelos vampiros em American Vampire. As bruxas de Snyder e Jock são entidades primitivas, canibalisticas, que estabelecem pactos com os humanos e que vivem em cavernas nas florestas, ou em troncos de árvore ocos. Seres telúricos, mais animais do que humanos e verdadeiramente assustadores. Para além da qualidade da escrita de Snyder e da força do traço estilizado de Jock, outro elemento que concorre para o sucesso do livro, é o excelente trabalho de cor de Matt Hollingsworth - explicado no final do livro da G Floy - que introduz um ruído perturbador mas extremamente eficaz na narrativa.
Face ao sucesso da primeira mini-série era inevitável o regresso dos autores ao universo de Wytches e esse regresso aconteceu este mês de Setembro no nº 1 da 2ª série da revista Image+, que funciona como catálogo da editora, com Bad Egg, uma história curta que mostra do que uma mãe é capaz para defender o seu filho e que serve para abrir o apetite dos leitores para o novo ciclo de Wytches que aí vem.
Publicado originalmente na revista Bang! nº 23, de Novembro de 2017

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Harley Quinn 3 - O Fim da Macacada

Com este post, chega ao fim a mini-colecção da Harley Quinn e também os meus posts de 2017. Um ano em que, mais uma vez, acabei por escrever menos do que contava neste Blog. Vemo-nos em 2018!

DE CONEY ISLAND A SAN DIEGO

Harley Quinn: O Fim da Macacada
Argumento – Jimmy Palmiotti e Amanda Conner
Desenhos – Chad Hardin, Marco Failla e vários
Quinta, 28 de Dezembro, Por + 10,90 €
Depois de dois volumes passados em Coney Island, Nova Iorque, os horizontes da Harley Quinn alargam-se consideravelmente neste terceiro e último volume da mini-colecção que o Público e a Levoir lhe dedicaram.
Com efeito, a aterragem da Poderosa, como se de um meteorito se tratasse, na praia de Coney Island vem introduzir a dimensão mais super-heróica do Universo DC que tem estado praticamente arredada da série, com a excepção da presença da Hera Venenosa, cuja relação ambígua com a Harley foi finalmente clarificada por Palmiotti e Conner. A presença da Poderosa permite aos autores gozar com os clichés habituais das histórias de super-heróis, desde os uniformes nada práticos e demasiado reveladores, as anatomias quase impossíveis e as identidades secretas, numa história em que a Harley se aproveita da amnésia da Poderosa para a convencer de que são uma dupla de super-heroínas. E é a combater o crime ao lado da Poderosa, que Harley vai parar a um Planeta desconhecido, governado pela Rainha Eidijamon, que não aceita muito bem o facto de Harley lhe matar o seu amante terrestre. Mas as aventuras espaciais de Harley e da Poderosa, desenhadas por Marco Failla de modo a permitir a Chad Hardin manter o ritmo de publicação mensal, não se ficam por aqui, pois a dupla tem ainda que enfrentar o Lorde Manos, um ditador cósmico que conta no seu exército com uma criatura que parece uma fatia de pizza com cogumelos… Esta delirante aventura serve para os autores parodiarem as sagas cósmicas da DC e Marvel, escritas por autores como Jack Kirby e Jim Starlin, sendo fácil ver no Lorde Manos uma homenagem ao Thanos de Jim Starlin, que surgiu como a resposta da Marvel ao Darkseid de Jack Kirby, que os leitores bem conhecem de anteriores colecções da DC.
Terminada a breve parceria com a Poderosa, o resto do livro prossegue com histórias afastadas da cronologia habitual da revista, como é o caso de Infelizes para Sempre, história pertencente ao evento Future’s End, que nos mostra o Universo dos Novos 52, cinco anos depois do seu início. Uma realidade alternativa, em que Harley vai parar a uma ilha misteriosa depois de um desastre de avião. Uma ilha onde o Joker é adorado como um Deus pelos nativos, o que possibilita aos autores concretizarem o sonho de muitos leitores, com o casamento da Harley com o Joker, que assim faz a sua espectacular estreia na série. Mas, como não podia deixar de ser, o casamento de sonho da Harley acaba por se transformar num pesadelo, quando descobre que os nativos a querem sacrificar num vulcão…
Finalmente, para encerrar em beleza esta colecção, Harley volta a derrubar a “quarta parede” de forma espectacular, numa história onde decide ir à Comic Con de San Diego para falar com um editor que publique o seu comic (desenhado na realidade por Amanda Conner) e encontrar os seus editores e criadores. Um final tão divertido quanto épico, que para além da participação especial de autores como Jim Lee, Paul Dini e Bruce Timm como personagens, conta com a arte de inúmeros artistas convidados, como Paul Pope, Javier Garrón, Damion Scott, Amanda Conner, John Timms, Marco Failla e Dave Johnson.

Publicado originalmente no jornal Público de 23/12/2017

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Comer/Beber, de Filipe Melo e Juan Cavia



Depois da pièce de resistance que foi Os Vampiros, Filipe Melo e Juan Cavia regressam à BD com dois belos aperitivos, Majowski e Sleepwalk, reunidos no livro Comer/Beber, lançado em meados deste mês na Comic Con Portugal, onde a dupla de criadores tem sido uma presença regular.
Na origem deste projecto, diferente até no formato de histórias (mais ou menos) curtas, por oposição aos relatos de maior fôlego, como a trilogia de Dog Mendonça e, sobretudo, Os Vampiros, está um convite de Carlos Vaz Marques para que Melo e Cavia produzissem uma BD para o nº 9 da revista Granta, que tinha precisamente como tema Comer e Beber. Embora a pretensão dos autores fosse fazer, não uma, mas duas histórias para a Granta, os condicionamentos dos prazos de produção da própria revista limitaram (temporariamente) a ambição dos autores e apenas Sleepwalk, a primeira das duas histórias previstas, foi publicada na revista, completando-se o projecto meses depois, com a publicação do mini-livro que motiva este texto e que reúne, embora numa ordem diferente à que o próprio título faria esperar, Majowski e Sleepwalk, as duas histórias profundamente humanas dedicadas à comida e à bebida, ou mais exactamente a uma tarte de maçã e a uma garrafa de champanhe.
Passada na Alemanha nazi, durante a Segunda Guerra Mundial, Majowski parte de uma história real, contada por Beatrice Schilling, a avó de arquitecta e cantora (e amiga do Filipe) Nádia Schilling, sobre uma garrafa de champanhe que o seu avô, proprietário de um dos melhores restaurantes de Berlim, guardou para beber numa noite especial. Já Sleepwalk é uma história de ficção, que podia muito bem ser um filme de série B americano, ou a letra de uma canção de Bruce Springsteen, sobre um homem que faz uma longa viagem pelos Estados Unidos para levar uma tarte de maçã a um amigo.
Para mim, a mais conseguida das duas histórias, é Sleepwalk, cujo ritmo lento e contemplativo e a utilização de uma música como título, tem paralelismo com Os Vampiros. Muito bem contada e magnificamente desenhada, Sleepwalk sugere mais do que mostra, obrigando o leitor a pensar e tirar as suas próprias conclusões, um pouco à semelhança do que também acontecia em Os Vampiros. Além disso, toda a estética da história remete-nos para uma América cinematográfica, que vai de David Lynch a Wim Wenders, que nos leva a pensar que, mais até do que alguns projectos anteriores de Melo e Cavia, pensados originalmente para o cinema, também esta BD daria uma belíssima curta-metragem. Algo que, tendo em conta as ligações da dupla ao cinema, quem sabe se não se virá um dia a concretizar…
Majowski, usando uma metáfora apropriada ao tema, é uma bebida que precisava de mais tempo de maturação e também de mais páginas para ser contada, de modo a que a história pudesse respirar melhor. Se os horrores sofridos pelos judeus em território alemão são bem conhecidos, em Majowski surgem demasiado em pano de fundo, o que, provavelmente, não teria acontecido se os autores tivessem tido mais tempo e mais espaço para a história. Do mesmo modo, o momento surreal (mas que aconteceu na realidade) do elefante que deambulava por entre os destroços da Berlim bombardeada, teria outro impacto se a sua presença não se limitasse apenas a dois quadrados. Também em termos de planificação há diferenças entre as duas histórias. Se Sleepwalk tem um fôlego cinematográfico, já Majowski está mais próximo de uma série televisiva, com panorâmicas pontuais que permitem ao leitor identificar os locais, passando-se o resto da história em estúdio, em interiores filmados em planos médios e grandes planos.
Finalmente, a opção por um formato inferior ao A5, e até ao da revista Granta original, não deixa que o desenho respire devidamente, algo mais evidente até em Majowski, pelo que me parece que o livro só teria a ganhar em ser impresso num formato superior - antes de o receber em papel, já tinha tido oportunidade de ler o livro num Tablet com um ecrã de doze polegadas e a arte não só aguentou perfeitamente essa ampliação, como até beneficiou dela) - até porque o facto de se tratar de uma edição com tiragem limitada, encareceu bastante o produto final, o que, acredito que mesmo assim não irá afastar os muitos leitores fiéis da dupla.
Em conclusão, e voltando às metáforas culinárias, Comer/Beber é como aqueles pratos de nouvelle cuisine: requintado, extremamente saboroso e bem apresentado, mas a exiguidade da dose (neste caso, do tamanho do livro) faz com que o preço que o cliente vai pagar por ele pareça demasiado elevado…
Comer/Beber, de Filipe Melo e Juan Cavia, Tinta da China, 72 págs, 15€

domingo, 24 de dezembro de 2017

FELIZ NATAL!

Mantendo a tradição, aqui vai o meu habitual Post de Natal, como sempre usando uma referência da BD. Desta vez, quem vos deseja as Boas Festas, é Dylan Dog, o popular personagem criado por Tiziano Sclavi que este ano se estreou finalmente em edição portuguesa, na colecção Novela Gráfica.
E, como este Blog não dispensa a informação útil, deixo-vos com um instrutivo diagrama, em que Dylan e Groucho explicam como se pode usar as decorações natalícias para combater um apocalipse zombie.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Harley Quinn 2 - Miúdas Sem Regras

HARLEY E HERA CONQUISTAM CONEY ISLAND

Harley Quinn: Miúdas sem Regras
Argumento – Jimmy Palmiotti e Amanda Conner
Desenhos – Chad Hardin, Stéphane Roux e Marco Failla
Quinta, 21 de Dezembro, Por + 10,90 €
Depois de ajudar Sy Borgman a eliminar a rede de antigos espiões do KGB infiltrados em Nova Iorque e a resolver antigas questões pendentes durante mais de 50 anos, o que implicou, entre outros momentos memoráveis, uma visita ao Jardim Zoológico, Harley regressa a casa onde a espera a Hera Venenosa. 
Criada em 1966, por Robert Kanigher e Sheldon Moldoff, Pamela Isley, a Hera Venenosa apareceu pela primeira vez no nº 181 da revista mensal do Batman, mantendo-se desde então como um dos principais vilões do universo do Cavaleiro das Trevas, mesmo que desde as mudanças operadas com a Linha Novos 52, apareça mais como uma anti-heroina, numa posição de equilíbrio precário entre o crime a legalidade, um pouco na linha da própria Harley Quinn  e da Catwoman, outras duas mulheres fatais do Universo DC, com quem costuma interagir.
E se a amizade entre Harley e Pamela já vinha sendo explorada desde os tempos da série de animação Batman the Animated Series, na fase de Palmiotti e Conner, a relação entre as duas vai mais além, sendo descrita pelo próprio Jimmy Palmiotti como “uma relação sentimental sem os constrangimentos da monogamia”, o que vem confirmar a bissexualidade de Harley Quinn.
Mas não é só em relação às opções sexuais da sua protagonista que Harley Quinn é uma série pouco convencional. Também a forma como a violência (extrema) é tratada, está mais próxima dos desenhos animados dos Looney Toons, no seu exagero, do que das histórias de super-heróis tradicionais. Ou seja, embora essa violência tenha consequências, é apresentada de uma forma tão extrema, que chega a ser divertida. Um pouco na linha do que costuma fazer Garth Ennis, em séries como o Preacher, na BD, ou Quentin Tarantino no cinema.
E por falar em cinema, não faltam também as referências cinematográficas nos argumentos de Palmiotti e Conner, a começar pelo próprio Tarantino, logo no capítulo três deste volume, onde há uma homenagem, mais ou menos óbvia, aos filmes Pulp Fiction e Kill Bill. Aliás, este terceiro capítulo é claramente aquele em que os autores mais longe levam o jogo referencial, que além do cinema, com as homenagens aos filmes de Tarantino e ao Rollerball e Fight Club, conta com uma participação muito especial da chefia criativa da própria DC, presente numa reunião ultra-secreta num arranha-céus de Manhattan, que é bombardeado pelo engenhoso sistema criado por Tony Grande para reciclar os excrementos das centenas de cães e gatos que Harley resgatou no primeiro volume. Nessa divertida sequência é possível reconhecer Dan Didio (com uma camisa azul com símbolos do Super-Homem), Jim Lee e Geoff Johns, os três mais poderosos editores da DC que, uma vez que esta cena não foi cortada, revelam ter sentido de humor…Embora o trabalho gráfico de Marco Failla e sobretudo de Stéphane Roux, que ilustra o capítulo final que reconta a origem da Harley Quinn, seja atraente e eficaz, muito do sucesso desta fase da Harley Quinn repousa nos ombros de Chad Hardin, o desenhador principal da série. Excelente desenhador, Hardin consegue um equilíbrio perfeito entre eficácia narrativa, espectacularidade, erotismo, humor e legibilidade, que está ao alcance de poucos.
Publicado originalmente no jornal Público de 16/12/2017